Nota do editor: este artigo é um resumo do texto original do Paulo Ferreira, publicado no portal «Sapo 24» [1].


No final de 2015, na mesma semana, mais dois jornais (o «Sol» e o «i») anunciaram o despedimento de cerca de dois terços dos seus trabalhadores. De há uma década e meia para cá, já «O Independente», o «24 horas» e o «Tal & Qual» fecharam as portas e o «Público», o «Diário de Notícias», o «Jornal de Notícias» e a «TSF» fizeram despedimentos colectivos, fazendo centenas os jornalistas perder o emprego.

Nos Estados Unidos, o número de trabalhadores no sector da imprensa caiu 36% desde o final dos anos oitenta do século XX. O mesmo aconteceu na generalidade dos países desenvolvidos e, em Portugal, os números não devem diferir, apesar da nossa tendência para desconhecer a estatística.

O mundo da comunicação social mudou com a Internet, para melhor para os consumidores e para pior para a comunicação social e os seus trabalhadores; sobretudo para a imprensa escrita. É fácil perceber porquê. Este artigo está disponível no computador, tablete ou telemóvel do leitor, gratuitamente, tal como a generalidade das notícias. O leitor não paga pela informação e não tem de se deslocar a um quiosque.

Desde que a Internet puxou a economia para o mundo digital, a imprensa anda a tentar encontrar fórmulas para recuperar as receitas da publicidade que perdeu: entre 2005 e 2014, a receita de publicidade nos jornais impressos norte-americanos caiu 65% (se os leitores foram embora, o que é que os anunciantes lá ficavam a fazer?), enquanto as receitas da publicidade digital, nos sítios dos jornais, 75%. Mas, em termos absolutos, esta subida não compensa a outra queda.

É difícil aceitar, quando acontece uma nova desgraça nos jornais portugueses, colocando as vidas das pessoas despedidas em jogo — profissionais competentes, que têm dificuldade em encontrar alternativas num mercado que está a passar por uma profunda reestruturação na base do seu negócio —, e tendemos a diabolizar os gestores dos jornais. Mas o que está em causa nesta crise é diferente: o mundo dos jornais mudou radicalmente nas últimas décadas, o da televisão está a mudar e o da rádio também vai mudar, porque a tecnologia a isso levou, como o aparecimento do automóvel estragou a vida dos empresários e trabalhadores das carruagens puxadas por cavalos.

O problema que se coloca ao jornalismo é simples de enunciar e difícil de resolver: quem o vai pagar no futuro? A questão não é corporativa. É uma questão de qualidade da democracia e da sociedade onde vivemos e que queremos deixar aos nossos filhos e netos. O jornalismo e a informação independente são um bem público absolutamente essencial para uma democracia saudável e plural. O financiamento do jornalismo e da informação é, então, o tema e as democracias terão, rapidamente, de encontrar modelos de financiamento sustentado para a informação. Pode ser através da filantropia e de fundações privadas, ou de branded content, por exemplo.

Ao Estado, deve caber a regulação. Por exemplo, obrigando os fornecedores de acesso à Internet a partilhar o lucro desse acesso com quem fornece o conteúdo. Quem pagaria o que paga pelo acesso à Internet, se não tivesse conteúdos para ler e ver? Tal como os operadores de televisão por cabo pagam para ter os canais nos seus pacotes, por que não colocar também os fornecedores de acesso à Internet a pagar pelos conteúdos?

Há, certamente, várias fórmulas, mas nenhuma é mágica. O modelo de financiamento da informação independente tem de mudar, porque ninguém estará disposto a perdê-la, depois de a ter experimentado.

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