Por Gustavo Martins-Coelho

Ainda Quarta-feira, 16 de Agosto de 2006. Depois do café que não chegou [1], o périplo cultural teve então início, junto do Estádio D. Afonso Henriques, que assim se juntou à lista dos «estádios do Euro» já avistados in loco por nós, noutras ocasiões. Falta penetrar no seu interior.

Seguiu-se uma visita guiada ao Museu Martins Sarmento, ou MMS, propriedade da Sociedade Martins Sarmento, ou SMS. A avaliar pelo nome de ambas as instituições, é surpreendente que não tenha telemóveis em exposição, mas tem, em compensação, objectos arqueológicos, a maioria dos quais desenterrados pelo próprio Martins Sarmento, o pai da arqueologia portuguesa, segundo o guia-intérprete que nos acompanhou. Pai ou não, o certo é que o senhor tem direito ao seu nome em metade da cidade de Guimarães, entre ruas e praças, escolas, museus, etc., o que significa que, ou tem uma grande cunha, ou é realmente importante. Foi também neste museu que encontrámos um claustro curioso, porquanto apenas tinha três lados. Apesar do guia-intérprete garantir que tal é normal, nós continuamos convencidos de que a falta de dinheiro foi o verdadeiro motivo da não conclusão do quarto lado do claustro. Por falar em guia-intérprete, diga-se de passagem que o senhor, apesar de simpático, tinha uma estranha fixação por suásticas, que conseguia identificar nos sítios mais inimagináveis, mesmo quando se tratava de simples cruzes de Malta. O final da visita trouxe a cereja em cima do bolo: o Guê encontrou, na biblioteca do museu, carcomido por um bicho que corrói, um livro de mil-oitocentos-e-troca-o-passo sobre Anatomia, em Francês, que demonstrou, após breve consulta, que a espécie humana não evoluiu muito nos últimos cento e cinquenta anos — nada que ler «As Farpas», ou outros escritos do género, também nos não devesse fazer suspeitar.

Saindo do museu, virando à direita e tomando a primeira rua à direita, encontra-se, também à direita, a igreja do padre brasileiro, cujo principal ensinamento é que «mais vale ter um cachorro amigo do que um amigo cachorro». Pelo meio destes profícuos ensinamentos, o padre acrescentou ainda não ser especialista em arte sacra (o que, de resto, ficou patente quando o mais aproximado ao estilo renascentista da sua igreja que conseguiu foi dizer que não era gótica) e que a Igreja de S. Domingos (que era o objectivo principal da visita) só estava aberta de manhã.

A Igreja das Domínicas estava fechada para obras. Já o Convento da mesma ordem, além de precisar de obras, estava uma desordem. Ao entrar, ouviu-se um som proveniente, certamente, do Além. O Agá supôs que algum tipo de espírito maligno tivesse baixado sobre aquele lugar, pois freiras, nem vê-las; apenas aqueles ruídos demoníacos e os panos vermelhos pendurados no tecto aqui e ali. Passeámos por aqueles corredores sombrios, temendo tanto pela nossa integridade física como pela das nossas almas, sem contudo ver ninguém: nem freiras, nem almas penadas, nem doutro tipo. À saída, encontrámos a única alma encarnada, que parecia ter saído da roda dos enjeitados que lá havia. Ponderámos então se seria melhor esperar que a chuva, que teimava e teimou nos dias seguintes em cair, abrandasse, na companhia do Okupa, ou afastarmo-nos rapidamente daquele lugar debaixo de chuva grossa. A decisão não tardou em surgir e foi no sentido da segunda opção, naturalmente. Antes molhado, que mal acompanhado!

Há males que vêm por bem — e este foi um deles: se não fossem a chuva e as freiras possessas, nunca teríamos conhecido a D. Tê-é, modista e dona duns tectos de sua casa verdadeiramente fantásticos, que, simpaticamente, os convidou a visitar. Foi um convite inesperado, fora do roteiro turístico oficial, mas que valeu bem a pena. Os ditos tectos são todos em madeira pintada e têm mais de quinhentos anos, segundo D. Tê-é. Apesar de precisarem de restauro, não deixam de ser magníficos.

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