Por Carlos Lima


O mês de Maio é o mês que a Fundação Portuguesa de Cardiologia [1] dedica ao coração, para chamar a atenção para os comportamentos, as atitudes e os hábitos de vida que podem colocá-lo em risco.

O coração é o órgão do corpo que activa a circulação do sangue, bombeando-o para todo o corpo [2]. É, na sua essência, um músculo [3] estimulado por fenómenos eléctricos e regulado por válvulas que permitem ter a circulação num único sentido (veias–aurícula–ventrículo–artérias [4]).

Existem factores que podem afectar o regular funcionamento do coração, os factores de risco cardiovascular. Dentro destes factores, existem alguns que não dependem da nossa acção ou dos comportamentos e atitudes que adoptamos, como é o caso da idade e do sexo. Embora possamos parecer mais jovens ou mais velhos do que a idade real que temos, o aumento da idade aumenta o risco cardiovascular. O sexo é determinado pela genética, mas sabe-se que a mulher está mais protegida do risco cardiovascular durante o período fértil em situação natural, ainda que alguns factores, como a pílula, possam mudar ligeiramente essa situação e esse é um factor para que a pílula seja recomendada por técnicos de saúde. Depois do período fértil, tem o mesmo risco que o homem.

Depois, existem factores que dependem de nós, da nossa vontade, da nossa atitude, dos nossos hábitos de vida. Estamos a falar do sedentarismo, da hipertensão arterial, do tabagismo [5, 6, 7, 8], do estresse, da obesidade [9, 10, 11], da diabetes e das dislipidemias.

O sedentarismo está relacionado com a falta de actividade da pessoa, quer seja por passar muito tempo sentada, caminhar pouco, ter pouca actividade física, quer seja por entender que tem uma vida agitada e já não precisa de actividade física. Para existirem ganhos em saúde em geral e cardiovascular em particular, é preciso que a actividade física tenha uma duração mínima de trinta minutos, seja praticada pelo menos três vezes por semana e tenha uma intensidade suficiente para subir a frequência cardíaca para valores acima dos cem batimentos por minuto. Assim, teremos ganhos na musculatura cardíaca, com uma contracção mais forte e mais eficaz, e na irrigação sanguínea do coração [12], fazendo com que as artérias coronárias estejam mais saudáveis e façam o sangue chegar a todo o músculo cardíaco. É importante perceber que é a contracção muscular que activa a circulação de retorno do sangue ao coração, ou circulação venosa.

A tensão arterial é a pressão que o sangue exerce nas paredes das artérias. Os valores considerados normais variam até 140 mmHg para a máxima, ou sistólica, e 90 mmHg para a mínima, ou diastólica. Acima destes valores (mesmo que seja só um deles), considera-se hipertensão arterial. A existência de hipertensão arterial é um indicador de maior resistência à circulação sanguínea, de maior esforço cardiovascular e de maior pressão sobre os órgãos mais irrigados, como é o caso do coração, dos rins, dos pulmões e do cérebro.

O hábito de fumar ou frequentar espaços onde existe gente a fumar faz mal à saúde. O tabaco tem uma quantidade de produtos que são por si só nocivos. Nomeadamente, contém produtos que têm facilidade em agrupar algumas células do sangue [13], formando estruturas maiores que vão literalmente entupir a circulação fina, ou seja, a rede de vasos sanguíneos mais pequenos, ou capilares. Além disso, têm facilidade em juntar-se às gorduras e com elas fixarem-se às paredes dos vasos sanguíneos maiores, incluindo as artérias coronárias [12]. Estes aspectos contribuem para uma pior qualidade circulatória; e o baixo teor de oxigénio do ar inalado em conjunto com o fumo faz o resto, ou seja, limita as células no acesso à quantidade necessária de oxigénio.

O estresse caracteriza-se por uma tensão nervosa permanente, dificuldade em relaxar os músculos, em dormir bem, é um mal-estar que nos deixa inquietos. Pode ter diversas origens, mas o fundamental é que altera a nossa vida. Apesar de nos colocar num estado de alerta permanente, reduz a nossa capacidade de concentração, aumenta o nosso ritmo cardíaco e a resistência dos vasos sanguíneos (porque os vasos sanguíneos também são músculos).

A obesidade resulta da acumulação de gordura, habitualmente na zona abdominal, mas, nalgumas pessoas, nas regiões musculares. A gordura que se vê e sente por fora é duplicada para dentro, o que faz com que os órgãos vitais tenham uma camada de gordura que os envolve. Como sabemos, a gordura é isolante e coloca esses órgãos a trabalhar a uma temperatura mais alta e assim aumenta o risco. Mas também exige um maior esforço do coração para transportar mais sangue e para transportar todo o peso associado à gordura.

A diabetes vai degradando a elasticidade dos vasos sanguíneos, para além de comprometer todo o sistema circulatório, particularmente a pequena ou micro circulação.

O colesterol é importante para o nosso organismo, mas existe o chamado colesterol bom, que tem um efeito protector, e existe o colesterol mau, que tem um efeito nefasto. Dito desta maneira, parece o bom e o vilão, mas a realidade é que o equilíbrio entre os dois é que é fundamental, porque se regulam mutuamente. Quando o colesterol mau aumenta, os efeitos são de grande risco para a saúde cardiovascular, porque o sangue fica mais «grosso» e exige um grande esforço ao coração para bombear o sangue. O exercício físico ajuda a diminuir o colesterol mau e favorece a produção do colesterol bom.

Os triglicerídeos são uma gordura importante. Funcionam como reserva de energia para os momentos de carência alimentar, mas, quando atingem níveis acima dos 150 mg/dl de sangue, fixam-se facilmente nas paredes dos vasos sanguíneos, criando resistência à passagem do sangue e tornando as artérias mais rígidas.

Cada um destes factores isolados não têm um efeito determinante, mas a conjugação de dois ou mais aumenta significativamente o risco de vir a sofrer de problemas cardiovasculares.

O mês de Maio, mês do coração, pretende ser um alerta para estes factores de risco cardiovascular.

Cuide-se…

Saúde!

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