Por Jarrett Walker
Traduzido do original [1] por Gustavo Martins-Coelho


É justo ter de pagar mais, se a sua viagem exigir um transbordo [2]? Eu já afirmei que não, mas também conheço a dificuldade de eliminar essa penalização. Assim, quando se queixar duma tarifa que penaliza o transbordo, tente entender a situação do ponto de vista do operador. Não porque ele esteja certo e o passageiro errado, mas porque o leitor pode ter de o ajudar a resolver o problema que têm em mãos.

Vamos às definições primeiro. Uma penalização por transbordo é qualquer elemento de uma política tarifária cujo efeito seja cobrar mais aos passageiros por uma viagem que requer dois ou mais veículos do que por uma viagem que use apenas um, mesmo quando a viagem é exactamente da mesma distância e quando não há qualquer diferença de classe, equipamento ou ineficiência evidente, que justifique uma sobretaxa.

Por exemplo, no debate do Sydney Morning Herald [3] sobre o transporte público de Sydney, apresentei o quadro abaixo, mostrando a diferença entre os preços para o comboio e para o comboio combinado com autocarro para viagens de exactamente a mesma distância:

Distância igual, preço diferente: exemplos de preços de bilhete simples, a partir da estação central para vários destinos à mesma distância

Destino

Distância em linha recta Preço
Comboio Comboio e autocarro Comboio

Comboio e autocarro

Wiley Park

Roselands 14 km $4,20 $6,20

Turramurra

St. Ives 18 km $4,60 $6,20
East Hills Menai 22 km $4,60

$6,60

Blacktown Bonnyrigg 30 km

$5,40

$9,70

Rooty Hill Rouse Hill 35 km $6,00

$9,30

O meu ponto de vista básico sobre penalizações por transbordo sempre foi este: o transbordo não é uma conveniência adicional, pela qual o cliente deve pagar um valor extra. É uma inconveniência exigida pela geometria de qualquer sistema de transporte colectivo eficiente, legível e frequente. Os sistemas de transporte colectivo devem, portanto, fazer o possível por minimizar esse inconveniente e encorajar as pessoas a fazerem transbordos. As penalizações por transbordo são exactamente o oposto deste imperativo.

Tanto quanto sei, a maioria das penalizações por transbordo surgem da mistura de quatro questões básicas:

  • Problemas de segurança práticos em torno das ferramentas físicas utilizadas para registar os transbordos, tais como as oportunidades de evasão ao pagamento criadas por bilhetes de transbordo. Se esta é a principal razão para uma penalidade por transbordo, os sistemas de cartão inteligente irão eliminar o problema e devem levar à remoção da penalidade por transbordo.
  • Leis e acordos de financiamento que se referem explicitamente ao bilhete de viagem simples em dinheiro. Uma fórmula de financiamento chave, que governa os operadores de transporte colectivo do condado de Los Angeles dá a estas agências um subsídio mais elevado, se elas reduzirem a sua tarifa base. A fórmula, na realidade, tenta recompensar o número de passageiros transportados, mas, como isso é difícil de medir quando há múltiplos operadores, a sua estimativa é feita dividindo a receita total pelo valor do bilhete de viagem simples. Isso penaliza os operadores por elevar o preço da viagem simples; mas incentiva-os a inventar outras taxas e penalidades por razões que nada têm que ver com as intenções reais da fórmula. Novamente, os cartões inteligentes, que fornecerão uma medida mais precisa e directa do número de passageiros, devem eliminar a necessidade de tais aproximações e os incentivos perversos que delas decorrem.
  • Uma obsessão jornalística com o preço do bilhete simples como a medida chave do custo das viagens. O preço do bilhete simples é fácil de discutir; e os jornalistas e outros não especialistas em transportes colectivos tendem a concentrar-se nele, produzindo títulos como «preços de Los Angeles são mais baixos do que em São Francisco» [4]. A existência destas manchetes incentiva os operadores a tentar, por razões de aparência, manter os preços dos seus bilhetes de viagem simples baratos. O mesmo se passar com as companhias aéreas: se a única preocupação for a redução do preço base do bilhete a todo o custo, então será necessário inventar mais e mais taxas. As penalizações por transbordo são uma taxa desse tipo.
  • Conflitos entre os interesses próprios de operadores geograficamente ligados. Em ambientes com vários operadores, a introdução dum transbordo gratuito pode ser feita à custa das linhas principais de vários operadores e tende a afectar diferentes operadores de forma diferente. Estes problemas são por vezes superados através de negociações heróicas, nas quais os operadores acordam em transferir dinheiro entre si de formas complexas, de modo a apresentar um sistema de bilhetes integrados simples ao passageiro. Noutros casos (como em Brisbane) a solução é criar uma nova meta-agência, que se rege todos os operadores, lhes paga pelo serviço, recebe o produto da venda de bilhetes e assume a responsabilidade por uma única rede principal em toda a região ou cidade.

Portanto, é difícil e importante. Os bons operadores de transporte colectivo estão, pelo menos, a reflectir sobre o problema, mas é difícil na mesma. Em casos de múltiplos operadores, por exemplo, o problema pode ser impossível de resolver sem criar uma meta-agência, com toda a ansiedade associada a «adicionar outra camada de governo».

O que pode o cidadão fazer? Uma coisa é confrontar jornalistas e outros que tentam fazer comparações simplistas baseadas em preços de bilhete de viagem simples. Jornalistas: se quiserem fazer peças rápidas sobre preços dos transportes, procurem preços médios (receita total, dividida pelo número de passageiros transportados) em vez de preços-base publicados. Sim, isso é mais difícil, porque nem todos os operadores podem calcular o número de passageiros de forma fiável, ou (como em Los Angeles) podem depender da receita de vendas para chegar a uma estimativa do número de passageiros. Novamente, porém, os cartões inteligentes devem eliminar esse problema.

Finalmente, como eu já me referi duas vezes a cartões inteligentes como a solução para o problema, deixem-me ser claro: a tecnologia pode resolver problemas de informação, mas não éticos. As penalizações por transbordo causadas pela desadequação das ferramentas de recolha de informação devem desaparecer quando os cartões inteligentes fornecerem a ferramenta necessária. Mas a tecnologia não vai mudar o problema político: para eliminar as penalizações por transbordo sem perder receita, provavelmente será necessário aumentar o preço do bilhetes de viagem simples, para compensar. Efectivamente, isso será admitir que temos subsidiado alguns passageiros à custa dos outros e devemos esperar toda a contestação que sempre vemos, quando dizemos às pessoas que vamos remover um subsídio com que elas têm contado.

Esse é o verdadeiro problema. A liderança corajosa é a única solução para isso.

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