Por Gustavo Martins-Coelho

Em Fevereiro [1], falei do método científico, a propósito da prevenção de quedas em casa. Hoje retomo o método científico, a propósito das medicinas alternativas.

Confesso que tenho alguma dificuldade em lidar, para não dizer em aceitar, o conceito de medicina alternativa. Ou complementar; ou outra coisa que lhe queiram chamar. Explico porquê: a medicina ocidental era, até ao século XIX, também ela uma «medicina alternativa», à luz daquilo que são, hoje as ditas medicinas alternativas. Existiam, pelo mundo fora, diversas práticas médicas pré-científicas, fundamentadas apenas no empirismo dos físicos, dos barbeiros-cirurgiões, dos bruxos, dos xamãs, etc. que as praticavam e as transmitiam, quase como se duma religião se tratasse. Aliás, muitos dos praticantes destas medicinas eram vistos como magos, ou, pelo menos, entes com uma relação privilegiada com os deuses.

Por exemplo, tratavam-se praticamente todas as doenças, incluindo algumas hemorragias, com sangrias. Até que alguém questionou a validade dessa prática, enraizada na teoria hipocrática dos humores, dizendo que, se calhar, era melhor verificar se estávamos mesmo a fazer alguma coisa pelos doentes, ou a pô-los ainda pior. Chamado a intervir, o método científico demonstrou a inutilidade da sangria, excepto em doenças muito concretas, como seja a hemocromatose, um tipo de porfiria e a policitemia, de modo que a sangria foi abandonada como terapia, excepto nos casos das pessoas que sofrem das doenças que acabei de dizer. No entanto, apesar da demonstração científica de que a sangria é geralmente inútil e da identificação dos casos em que é útil, a medicina ayurvédica, a medicina unani e a medicina tradicional chinesa continuam a advogar o sangramento dos doentes, mesmo nos casos em que está perfeitamente demonstrada a inutilidade, para não dizer o risco, de tal procedimento. Qual é a alternativa, aqui? É entre a ciência e a estupidez…

Esta é a diferença fundamental, entre a medicina e as medicinas alternativas: no Ocidente, a medicina partiu dum estado em que era indistinguível, em termos de crenças e fundamentos, das restantes correntes médicas existentes no mundo, para uma situação em que se tornou científica, porquanto permitiu ao método científico validar (ou invalidar) os seus dogmas e as suas práticas. As medicinas alternativas não são alternativas nenhumas. As medicinas complementares não complementam nada. As medicinas alternativas são um conjunto de práticas baseadas na crença não científica; são medicinas pré-científicas.

Isto não quer dizer que a medicina científica não deva olhar para as práticas das medicinas pré-científicas. Existem vastos campos abertos à investigação na área farmacológica, nos tratamentos físicos e mesmo nas intervenções psicológicas. As práticas das medicinas pré-científicas devem ser submetidas à prova do método científico. Caso demonstrem a sua utilidade, devem ser acrescentadas ao arsenal diagnóstico e terapêutico médico disponibilizado nos hospitais, nos centros de saúde e nos consultórios médicos. Caso contrário, devem ser abandonadas de vez e o charlatanismo dos que insistam em praticá-las severamente punido (tal como a má prática médica é punida).

Para concluir e resumindo a ideia que quero que fique aqui assente, socorro-me das palavras dos médicos Phil B. Fontanarosa e George D. Lundberg, editores da Revista da Associação Médica Americana [2]:

Não existem medicinas alternativas. Existe uma medicina demonstrada cientificamente, baseada na prova e suportada por dados sólidos, e uma medicina não demonstrada, para a qual faltam provas científicas. Se uma prática terapêutica é ocidental ou oriental, se é convencional ou inconvencional, se envolve práticas de mente e corpo ou genética molecular, é totalmente irrelevante, excepto para efeitos de estudo histórico ou interesse cultural.

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