Nota do editor: este artigo é um resumo do texto original do Francisco Seixas da Costa, publicado no «Jornal de Notícias» [1].


Há muito que a agenda europeia é dominada pelo medo. A sua própria construção resultou do medo perante a ameaça soviética. Entre o final da II Guerra Mundial e a crise petrolífera de 1973, a Europa cresceu, ganhou prosperidade e emprego e criou uma sociedade de consumo similar à que já existia nos EUA, mas o medo do socialismo tutelado por Moscovo mantinha-se.

Com tempos económicos favoráveis, alargamentos sucessivos, uma crescente diversidade e uma mudança de natureza da União, esta tornou-se muito mais desigual e bastante menos optimista. Os Europeus tornaram-se eurocépticos, fruto dos egoísmos nacionais, que tornam Bruxelas o bode expiatório de tudo quanto corre mal em casa, das quebras de solidariedade e duma mentalidade cada vez mais economicista e menos imbuída dos valores que lhe deram origem. O medo regressou em força e o projecto integrador, em vez de ser visto como uma defesa, começou a ser olhado como a causa dos problemas. Os alargamentos induziram o medo das deslocalizações de empresas, a imigração somou-se como uma nova ameaça ao emprego e induziu pulsões securitárias. A questão dos refugiados e a vaga terrorista vieram legitimar o mal-estar intercultural e inter-religioso que já emergia em muitos países.

Este complexo quadro é o terreno ideal para quem advoga um recuo no processo integrador. Para Portugal, tal recuo seria muito negativo e agravaria a nossa situação periférica.

Qualquer cedência ao Reino Unido, no seu pedido de devolução de poderes, que pudesse configurar um recuo nos direitos dos nossos trabalhadores, seria um precedente muito nefasto. É que nunca se sabe, aberta a porta, quem poderia querer passar por ela…

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