Nota do editor: este artigo é um resumo do texto original do Peter Van Buren, publicado no blogue «We meant well» [1].


Ninguém quer ouvir isto e eu não tenho prazer em dizê-lo, mas tem de ser feito.

Eu lamento as mortes do 11 de Setembro, do ataque em Bali em 2002, do ataque em Londres em 2005, do ataque ao Charlie Hebdo em Janeiro de 2015 e do avião russo abatido no monte Sinai, bem como as mortes não ocidentais em ataques terroristas que passam despercebidos na comunicação social.

Mas é preciso dizer que, apesar de anos de guerra ao terror, o terror parece estar mais próximo de nós, o que torna necessário repensar o que fizemos e continuamos a fazer.

Desde 2001, espiámos os estrangeiros e os nossos próprios cidadãos, mas fomos incapazes de parar os ataques que aconteceram. Abdicámos de tantos direitos, em prol da segurança, e nada ganhámos com isso.

Desde 2001, os EUA, os Reino Unido, a França, a Austrália e outros entraram em guerras no Iraque, no Afeganistão, na Líbia e na Síria e enviaram aviões telecomandados matar pessoas nas Filipinas, no Paquistão e em vários países africanos — com poucos ou nenhuns resultados.

Desde 2001, os EUA assassinaram homens como bin Laden, al-Zarqawi, al-Awlaki e Jihadi John e torturaram muitos outros em Guantánamo ou no inferno de Salt Pit, no Afeganistão, mas não conseguiram impedir os ataques de Paris, nem os que se lhe seguiram e seguirão.

Abdicámos das nossas liberdades para nada, os nossos soldados morreram para nada, e matámos cidadãos doutros países para nada. Graças à nossa intervenção, o Iraque, a Líbia e a Síria são agora espaços ingovernáveis e santuários de terroristas. Perseguimos e discriminamos as nossas próprias populações de muçulmanos e depois surpreendemo-nos com a sua radicalização, culpando os tuítes do Estado Islâmico.

O terrorismo não tem por objectivo matar pessoas inocentes. Isso é um mero instrumento, para afectar a política dos estados. O verdadeiro teste é como estes respondem a um ataque terrorista. Os EUA não perceberam isso e falharam, em 2001. A França vai pelo mesmo caminho, após os ataques de Paris.

Se eu soubesse a solução, di-la-ia. Mas eu não sei. O que sei é que temos de parar o que andamos a fazer desde 2001. Não funcionou e não há qualquer indício de que venha a funcionar alguma vez. Deixemos o Médio Oriente em paz. Paremos de criar mais estados falhados. Recuperemos as liberdades perdidas em nome duma falsa ideia de segurança. Acolhamos os muçulmanos que vivem entre nós. Compreendamos que o inimigo desta guerra é um conjunto de ideias — religiosas, anti-ocidentais, anti-imperialistas — e que não se pode bombardear uma ideia.

Experimentemos estas coisas e vejamos se as coisas melhoram. Não vejo como podem piorar.

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