Nota do editor: este artigo é um resumo do texto original da Laurie Penny, publicado na revista «New Statesman» [1].


Uma das piores mentiras que se diz às crianças é que, se disserem a alguém o que desejaram, o desejo não se realiza; e nós levamos essa ideia para a idade adulta: não podemos dizer em que mundo gostaríamos de viver, porque, na melhor das hipóteses, ficaremos desapontados e, na pior, seremos presos.

Hoje em dia, a esperança parece um luxo inalcançável. Mas nunca houve um tempo em que sonhar um mundo melhor fosse mais necessário, porque nunca o conceito de «mundo melhor» esteve mais distante: estamos no ponto em que cidades inteiras se afundarão, antes que sejam tomadas medidas contra o aquecimento global; no ponto em que cidades continuam a ver cidadãos a morrer em ataques terroristas; no ponto em que os robôs ameaçam roubar-nos uma fatia considerável dos empregos. Parece que vivemos num mundo distópico. Aliás, para fazer um romance distópico, basta colar aleatoriamente duas ou três manchetes noticiosas dos nossos dias.

As utopias são mais difíceis, pois requerem que façamos o exercício difícil de procurar visualizar um mundo melhor. É por isso que a imaginação é a melhor arma tanto dos radicais como dos progressistas. Mas, apesar da dificuldade, as utopias existem desde que existem comunidades humanas que sonharam com uma vida melhor.

Não é por acaso que as distopias proliferam na literatura do início do século XXI. A ideologia capitalista tornou-se tão presente, que deixou de ser uma ideologia e se tornou a realidade. Não é que o capitalismo seja o destino inevitável da humanidade: nós é que fomos ensinados a não o questionar.

Só porque a distopia é fácil, não significa que seja inútil. É importante apontar a opressão. Uma excelente forma de anular a oposição é insistir que não basta ser contra, mas também é preciso propor uma alternativa. Ora, isso não é verdade. Se nós estivermos a ser agredidos por um bando de rufias, é legítimo dizer-lhes para pararem, sem ter de lhes sugerir uma actividade alternativa. É difícil imaginar um mundo melhor, quando estamos a tentar proteger-nos da pancada. Mas difícil não é impossível.

A maioria das pessoas de esquerda tem uma ideia do tipo de mundo em que gostaria de viver, só que é difícil fazê-los verbalizar essa ideia, por receio de serem ridicularizados. A resposta padrão a alguém que diz que preferia viver numa sociedade onde metade da riqueza do mundo não é controlada por cem pessoas é o ridículo. Mas a única ideia ridícula é a de que o actual sistema económico é sustentável.

Nós não dizemos que mundo queremos, pela mesma razão por que nos disseram, em crianças, para não partilhar os desejos: porque, se eles não se realizarem, vamos ficar desapontados e sentir-nos desconfortáveis. Mas a palavra «utopia» significa «nenhum lugar». O caminho é mais importante do que o destino, mas, sem um destino, não há caminho.

Quando eu penso em utopia, penso que a actual independência das mulheres era impensável há meio século. Mas alguém o sonhou e é por isso que hoje estamos aqui. Ainda falta percorrer um caminho, mas temos de continuar a pedir mais, para que a mudança aconteça. Quem quer não acredite que é possível um mundo melhor se nos atrevermos a sonhá-lo, tem de olhar para a história da emancipação feminina.

Como feminista, perguntam-me muitas vezes quando o movimento se dará por satisfeito. A resposta é: nunca — porque, quando nos sentirmos satisfeitas, quando acreditarmos que vivemos no melhor dos mundos possíveis, o futuro desaparecerá e a mudança tornar-se-á impossível.

A utopia é a busca da utopia. É o «nenhum lugar» que ilumina o caminho através dum presente inavegável. Quando chegamos ao horizonte, ele já está mais à frente e é para lá que vamos.

Agora, o futuro parece sombrio e é por isso que temos de continuar a imaginar outros mundos e a traçar rotas para lá chegar. No meio de tanta crise global, a única ideia ridícula é a de que as coisas são imutáveis.

A sociedade humana vai mudar de forma inimaginável e por isso a nossa melhor opção é ter a coragem de fazer pedidos impossíveis e de enfrentar o ridículo.

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