Por Sara Teotónio Dinis

Estudei numa escola que nasceu numa terra onde nada havia para além de areia e de gente teimosa que quis dela tentar fazer alguma coisa.

Na terra cujo nome deriva do latim calle vanum (i.e. caminho vazio) nasceu um seminário, que mais tarde se transformou em colégio. Por dar às crianças das redondezas a educação que a escola pública não conseguia na altura assegurar a todas, tornou-se numa escola com contrato de associação – crescendo orgulhosamente como colégio sem uniforme e sem propina, aberto ao pobre e ao rico, com regulamento interno transversal e que sempre se fez cumprir a todos por igual.

Tem as maiores e melhores condições que algum dia vi em qualquer outra escola que visitei – foi crescendo com a paixão e a visão de quem a dirigia e para os alunos. Repito – para os alunos.

Nos dias que correm, o governo português quer cortar o financiamento a esta escola, porque entretanto investiu na escola pública, e a rede circundante já terá, segundo afirma, as condições necessárias para receber as 950 crianças/adolescentes que lá estudam.

Os 950 alunos serão, no entender do que se pode ler e do que eu disso concluo,  redistribuídos pelas duas escolas públicas mais próximas, ambas a 15 minutos de carro (20 com paragens). Rotinas diárias à parte… Há salas disponíveis nestas escolas públicas? Vão contratar professores e abrir mais turmas para estes alunos? Ou vão dividir os alunos pelas turmas já existentes e assim diminuir a qualidade do ensino prestado em consequência do maior número de alunos por turma? Isto o governo ainda não garantiu – corrijam-me se estiver desactualizada. E aqui, as consequências, caros pais, são para os filhos de todos – os que frequentam a escola pública e os que frequentam a escola privada.

Quando os 950 alunos terminarem o seu percurso no ciclo em que estão, irão embora, segundo afirma o executivo. Os 85 docentes e os 50 trabalhadores não docentes irão para o desemprego. A escola, que é do tamanho e da qualidade que se vê, vai fechar e ficar inutilizada.

Porque é que vai fechar? Porque as crianças que serve são crianças cujos pais não podem pagar 500 euros/mês para ali ter os filhos a estudar. Assim, simples.

Porque é que o governo quer deixar de financiar o colégio? Porque é que o governo gastou milhões a construir novas escolas por este país fora se já tinha umas quantas, que até financia, a servir as necessidades educativas em falha?

Sim, se é para discutir onde o estado gasta o dinheiro, vamos falar também da Parque Escolar. E já agora, e porque não?, vamos discutir também os milhões que o governo paga aos prestadores de saúde privados porque não tem capacidade de dar resposta ao cidadão comum no SNS (vá-se lá perceber como e porquê).

Anúncios