Por Gustavo Martins-Coelho

Eu aprecio «O coiso», agora conhecido como «A colcha amarela» [1]. Sou um leitor assíduo; por vezes, solto belas gargalhadas, graças ao tom bem-disposto com que ele vai deitando as suas farpas; às vezes, as gargalhadas acontecem em lugares públicos, quando vou a ler, por exemplo, no metro; e até já reproduzi [2] ou resumi [3] artigos do «Coiso» aqui na «Rua…» [4].

Mas não posso concordar com tudo o que o Artur lá escreve, só porque sim; e, por exemplo, discordo fortemente de dois textos que ele publicou a propósito da ASAE [5, 6]. São textos antigos, mas mantêm-se actuais e creio que o Artur, se não tiver mudado de opinião entretanto, não será a única pessoa a pensar assim. Aliás, um dos artigos diz mesmo isso: aparentemente, pessoas cuja opinião faz escola, como o Vasco Pulido Valente, pensam da mesma forma.

Dizia o Vasco, citado pelo Artur, que «em 1940 ou 50, [quando começou] a ir à praia, comia bolas-de-berlim, com a criminosa colaboração da […] família [e] sem qualquer investigação ou autorização do Estado [que], nessa altura, não se interessava pela minha saúde.»

Onde o Vasco vê um problema, eu vejo que, em 1954, segundo a Unicef, por cada mil crianças que nasciam em Portugal, morriam 131 antes de chegarem aos cinco anos de idade; enquanto, em 2015, segundo a mesma organização, para as mesmas mil nascidas, morriam apenas três ou quatro [7]. Ele teve a sorte de ficar cá, para contar a história de como sobreviveu sem a ajuda do Estado, mas esquece-se dos 131 indivíduos, nascidos no mesmo ano que ele, que não estão cá para contar como morreram sem que o Estado se preocupasse com a saúde deles; e eu desconfio que o facto do Estado ter passado a interessar-se pela saúde dos filhos e dos netos do Vasco e da ASAE ter passado a fiscalizar as bolas-de-berlim que todos eles comem na praia e muitas outras coisas que comem noutros sítios, fez alguma diferença e permitiu que mais alguns indivíduos pudessem agora contar como foi crescer à sombra do Estado… Chama-se saúde pública.

O Artur acrescenta, em tom crítico, que, «agora, as [bolas-de-berlim] têm que estar acondicionadas em malas térmicas, à temperatura de 7 graus, têm que ser servidas com pinças e os vendedores têm que ter um curso de manuseamento», para mais abaixo dizer, como se fosse uma coisa boa, que se recorda, «perfeitamente, de estar, de pé, agarrado a um varão, junto à saída de um daqueles autocarros de dois andares da Carris, enjoadíssimo, aproveitando os solavancos do veículo, para vomitar, para a estrada, uma bola-de-berlim com creme, comida, horas antes, na praia.»

Pois — se a bola-de-berlim tivesse sido acondicionada numa mala térmica, à temperatura de sete graus, e tivesse sido servida com pinças, por um vendedor com formação no seu manuseamento, talvez a viagem de regresso da praia do Artur tivesse sido mais confortável e menos vomitada… Chama-se protecção da saúde.

De seguida, o Artur parte para a crítica dum artigo científico sobre cientistas britânicos que calcularam «o número de pessoas que não morreriam, se determinados produtos alimentares tivessem impostos mais altos», chamando a esse estudo e às suas conclusões orwellianos. O Artur esquece-se de que o que os cientistas britânicos fizeram não é mais do que a quantificação dum problema, requisito básico para se conhecer os factos e daí poder fazer juízos de valor e tomar decisões. Nada há de orwelliano no conhecimento. Nem há «algures em Bruxelas, ou em Lisboa, um grupo de burocratas que decide o que é bom ou é mau» para cada indivíduo. O que há é alguém que decide criar as condições para que cada indivíduo faça, por si, a escolha mais saudável. Chama-se promoção da saúde.

O Artur diz que aprendeu por si a deixar de comer bolas-de-berlim. Há quem não tenha essa sorte. Por que não há-de haver quem o ensine (ensinar os ignorantes é uma obra de misericórdia, tanto quanto me lembro); e por que não há-de esse alguém ser o Estado? Chama-se literacia para a saúde.

 

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