Por Gustavo Martins-Coelho

Na semana passada [1], terminei a minha crónica citando dois médicos, editores da Revista da Associação Médica Americana [2], que disseram, já nos idos de 1998, que «não existem medicinas alternativas. Existe uma medicina demonstrada cientificamente, baseada na prova e suportada por dados sólidos, e uma medicina não demonstrada, para a qual faltam provas científicas. Se uma prática terapêutica é ocidental ou oriental, se é convencional ou inconvencional, se envolve práticas de mente e corpo ou genética molecular, é totalmente irrelevante, excepto para efeitos de estudo histórico ou interesse cultural.»

Mas a verdade é que existem medicinas alternativas. Tantas, que é difícil defini-las e classificá-las, que é o que vou tentar fazer hoje, com a ajuda do Centro norte-americano para a Saúde Complementar e Integrativa [3]. Este centro é uma das 27 agências que compõem os Institutos Nacionais de Saúde norte-americanos [4], que são uma entidade do Departamento federal de Saúde e estão encarregues da investigação biomédica e no ramo da saúde, tanto através do seu programa próprio de investigação, para o qual contam com mais de cinco mil investigadores (o que faz deles a maior instituição de investigação biomédica do mundo), como através do financiamento de projectos de investigação levados a cabo por outras instituições científicas.

Mas dizia eu que vou tentar definir e classificar as medicinas alternativas com a ajuda do Centro norte-americano para a Saúde Complementar e Integrativa. Este Centro aboliu a palavra «alternativa» do seu nome (costumava chamar-se Centro Nacional para a Medicina Complementar e Alternativa), justificando o facto da seguinte forma: a medicina convencional é aquela praticada pelos médicos e restantes profissionais de saúde qualificados — enfermeiros, psicólogos, fisioterapeutas, etc.; a medicina alternativa é uma prática médica desenvolvida fora do âmbito da medicina convencional e utilizada em vez desta; se a mesma prática for utilizada em simultâneo com a medicina convencional (o que — dizem eles — é o mais frequente), então trata-se duma medicina complementar [5]. Aqui se vê o problema desta definição: a mesma coisa pode ser convencional, se for prescrita por um médico; alternativa, se for utilizada pelo doente, em vez de consultar o médico; e complementar, se o doente for simultaneamente ao médico e ao curandeiro. Finalmente, o «Integrativa» no nome do Centro refere-se à integração das práticas não convencionais na medicina convencional. No fundo, «integrativa» significa «validação científica». Tal como eu dizia há uma semana [1]: «caso demonstrem a sua utilidade, [as medicinas alternativas] devem ser acrescentadas ao arsenal diagnóstico e terapêutico médico disponibilizado nos hospitais, nos centros de saúde e nos consultórios médicos.» Integradas, portanto! «Caso contrário, devem ser abandonadas de vez e o charlatanismo dos que insistam em praticá-las severamente punido (tal como a má prática médica é punida).»

Com tanta complicação na definição, eu continuo a preferir o termo que usei na semana passada [1]: medicinas pré-científicas — ou seja, que não foram ainda validadas pelo método científico.

As medicinas pré-científicas, segundo o Centro norte-americano para a Saúde Complementar e Integrativa, cabem praticamente todas num de dois grupos [5]: o dos produtos naturais e o das práticas de corpo e mente. Os produtos naturais incluem as plantas medicinais, as vitaminas e os minerais, e os pró-bióticos; enquanto as práticas de corpo e mente incluem o yoga, a manipulação quiroprática ou osteopática, a meditação, a massagem terapêutica, a acupunctura, as técnicas de relaxamento, o tai chi, o qi gong, o toque terapêutico, a hipnoterapia e as terapias do movimento. Finalmente, como em todos os sistemas de classificação, existem as práticas que não encaixam bem em nenhum dos grupos e que ficam na categoria «Outros», como é o caso dos curandeiros tradicionais, da medicina ayurvédica, da medicina tradicional chinesa, da homeopatia e da naturopatia.

Por hoje, ficamos por aqui. Para a semana, falaremos um pouco mais em detalhe sobre algumas destas medicinas ditas alternativas.

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