Nota do editor: este artigo é um resumo do texto original da Faranaz Keshavjee publicado na revista «Visão» [1].


Os jihadistas actuam segundo uma lógica religioso-belicista baseada em leituras de versículos do Alcorão que apelam à guerra, à violência e à morte aos infiéis. De facto, os versículos sobre a guerra são muitos e estão espalhados por doze capítulos no Alcorão, mas a sua exegese é complexa e ambígua: porque a revelação foi sendo transmitida durante 23 anos ao Profeta Maomé e aos muçulmanos, sempre oralmente; porque os registos dessas revelações estiveram em materiais desde peles de animais a folhas de plantas e são produto de discursos de retórica e dialéctica que pertencem a determinado tempo e contexto; porque a compilação destes manuscritos aconteceu mais de cem anos após o desaparecimento do Profeta; porque a redacção do Alcorão foi ainda mais tardia e provavelmente segundo critérios de selecção, organização e ab-rogação questionáveis; porque os capítulos não estão cronologicamente organizados; porque houve versículos omitidos ou integrados em capítulos onde se pensava fazerem mais sentido, de acordo com os interesses religiosos e políticos do momento; porque a linguagem poética dos árabes pré-islâmicos apresenta múltiplas interpretações e traduções possíveis; porque é necessário conhecer o pensamento e a organização social, política e económica dos árabes pré-islâmicos, para entender o Alcorão por analogia ou contradição a algo que já existia; e, finalmente, porque as interpretações e traduções posteriores à redacção do Alcorão esbarraram numa ordem hegemónica da versão dominante da canonização islâmica.

Para dar um exemplo desta complexidade, no capítulo 16, versículos 125 a 127, diz-se:

(125) Convida (todos) para o caminho do teu Senhor com sabedoria e sermões belos, e discute com eles nas formas que sejam mais belas e mais graciosas: pois o vosso Senhor conhece bem quem se desviou do Seu caminho, e aqueles que recebem os Seus ensinamentos. (126) Se os punis, então puni-os do mesmo modo como fostes atormentados. Mas se persistirdes pacientemente, isso será melhor para o paciente. (127) Sede pacientes. A vossa paciência existe apenas através de Deus.

Existem dúvidas sobre se o verso 125 estaria cronologicamente ligado aos restantes. Mas, para além dessa polémica, o verbo «aqaba» surge três vezes nestes versículos, sendo o seu significado «alternar», «punir» ou «punir de volta» (no sentido de retribuição ou vingança). Se usarmos outras traduções que não «punir» e «atormentar», o versículo poderia ter outro significado.

Para além das questões de cronologia e de interpretação e tradução, é preciso perceber o pensamento e a organização social, económica e política na arábia pré-islâmica. Os árabes nómadas não atribuíam um significado transcendente à guerra, nem previam uma recompensa numa vida para além desta. Os beduínos estavam permanentemente em guerra, para afirmação da honra, para a dinâmica económica e o prestígio social. As alianças entre os grupos eram determinadas pelo parentesco. Jihad significa, literalmente, ultrapassar-se a si mesmo, procurar, explorar, aguentar dores extraordinárias ou inimigas, não tendo que ver com combate.Jihad seria o acto de ultrapassar a ideologia pré-islâmica e adoptar aquela difundida por Maomé. A «guerra santa» é uma invenção dos Europeus.

Jihad é a transição duma cultura de parentesco para outra baseada na comunidade religiosa. O conceito de Deus único abalou todo o sistema de crenças existente e a aliança de grupo veio destruir a ideia de aliança por parentesco. Essa transformação foi difícil, pelo que o conceito de Jihad é utilizado em diversos capítulos, desde contextos de não agressividade até aos de militância, sendo tanto mais utilizado quanto mais incapazes os muçulmanos são de defenderem a existência duma comunidade islâmica.

Esta é a razão principal para que o Alcorão esteja repleto de chamamentos para a guerra. Os seguidores do Profeta que se recusavam a defender-se eram os que seriam incapazes de ultrapassar os descrentes (kafirun), ou hipócritas (fitna), que hoje são designações atribuídas aos que não seguem a interpretação radical jihadista, incluindo os muçulmanos que não pensem nem ajam da mesma maneira, e os torna alvos a abater. A comunidade muçulmana não tinha uma opinião homogénea em relação à luta, durante a liderança de Maomé, e, depois da sua morte, na redacção da revelação, houve um agrupamento de versículos, algumas omissões ou substituições e um processo de edição, que revelou a existência de grupos distintos dentro do Islão, dos quais um adquiriu uma posição hegemónica que se canonizou como sendo a versão fiel da revelação.

Os princípios de pluralismo e inclusão e outros valores éticos e morais que o Alcorão também transmite, assim como a liberdade dum ser humano não ter sequer uma religião, nunca aparecem nos discursos dos radicais islâmicos. Tal como não aparece a parte onde se diz que é através da pluralidade religiosa que nos podemos conhecer melhor uns aos outros e, cada um no seu caminho, superar-nos na via da consciência social ou do bem comum. Nem mesmo os versículos que exortam os muçulmanos à procura do conhecimento, «nem que para isso tenham de ir até à China», que estimularam o conhecimento da filosofia, da álgebra, da matemática, da astronomia, o humanismo dos Buyidas e todos os avanços civilizacionais que só foram possíveis graças ao Islão, surgem como parte do discurso dos radicais islâmicos.

A interpretação da violência no Alcorão só poderá ser devidamente estudada, se conseguirmos separar o discurso fundacional do discurso fundamentalista. O primeiro pressupõe princípios éticos e morais duma religião que representou um avanço civilizacional incontornável, enquanto o segundo pretende destruir tudo o que não obedeça a uma hegemonia anticivilizacional.

O fracasso do discurso muçulmano pluralista e cosmopolita, de valores e princípios éticos, deve-se ao fracasso intelectual dos próprios muçulmanos. A sua recuperação requer que os muçulmanos se dediquem a uma honesta exegese do Alcorão, que passe da leitura sincrética e literal para uma leitura multidisciplinar e de honestidade intelectual, que recupere toda a poética da beleza corânica.

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