Por Gustavo Martins-Coelho

Tudo se resolve. Mas nem sempre se resolve da forma conveniente, ou que gostaríamos.

As pessoas não me cansam. Somos diferentes. Aborrece-me ter de conviver com os pés enfiados debaixo da mesa, ingerindo e deglutindo alimentos sólidos ou beberagens líquidas. Entedia-me. É nessas alturas e noutras que tais que melhor compreendo o tédio do Desassossego. Em parte nenhuma da definição do verbo «confraternizar» diz que tem de ser com os pés debaixo da mesa. Nem em estado de embriaguez. Aliás, confraternizar em forma de embriaguez é a pior forma de confraternizar.

Vive-se três vezes. A primeira vez, vive-se por antecipação, enquanto se fazem planos para o que há-de vir.

A Internet é um óptimo sítio para atribuir autores errados às citações. Mas não é a única. Ao contrário do que se pensa, a frase «life is what happens to us while we are making other plans» não é da autoria do John Lennon; este apenas a popularizou, numa canção sua, mas a frase é bem mais antiga e atribuída a um senhor chamado Allen Saunders [1]. A culpa, bem visto, não é da Internet, mas da música. Uma frase tem mais impacto, quando é cantada, do que quando é lida. É por isso que, mesmo entre as pessoas que dizem não gostar de poesia é possível encontrar apreciadores de letras de canções. E o que são letras de canções, se não poesia? Bem, quase todas [2]

Mas o Allen Saunders estava errado. A vida também é fazer planos. Fazer planos é viver uma experiência, por antecipação. Às vezes, pode ser a única, ou a melhor forma de vivenciar. Muitos planos não chegam a concretizar-se e a realidade fica demasiado frequentemente aquém das expectativas [3] — e dos planos. Alguns planos não são, sequer, realizáveis. É por isso que lhes chamamos fantasias. Fantasiar é viver. Planear é viver.

Vive-se três vezes. A primeira vez, vive-se por antecipação, enquanto se fazem planos para o que há-de vir. A segunda vez, vive-se in hoc tempore, in loco. Está-se lá no momento e sente-se sinestesicamente. Da primeira vez, viveu-se no plano da ideia; da segunda, vive-se no plano dos sentidos. Se os sentidos estiverem embotados pelo álcool, vive-se menos, porque se sente menos. O álcool não nos faz dançar melhor; faz-nos preocupar menos com os pés do nosso par. Dançamos melhor, se o pisarmos mais vezes? Vivemos mais intensamente, mais felizes, se dançarmos pior?

Vive-se três vezes. A primeira vez, vive-se por antecipação, enquanto se fazem planos para o que há-de vir. A segunda vez, vive-se in hoc tempore, in loco. A terceira vez, vive-se a recordação. Pois não dizem que recordar é viver? Da primeira vez, viveu-se no plano da ideia; da segunda, no plano dos sentidos; da terceira, vive-se no plano da memória. Mas, de certa quantidade para cima, o álcool é capaz, não só de embotar o presente, mas também de apagar o passado. Nenhum dos convivas que estava naquele jantar se lembra de que ele aconteceu, excepto eu. Fui o único que o acabei sóbrio. Eu vivi in illo tempore e posso reviver sempre que quiser. Nenhum deles pode acompanhar-me mais, porque todos eles estavam demasiado embriagados, para acautelarem memórias para o futuro. A minha vida está, pois, mais rica e completa do que a deles.

Gostava de poder confraternizar mais, mas doutra forma. É pela limitação de formas, que me falta a paciência para confraternizar com as pessoas. Não me fartaria de poder estar junto a alguém a ler um livro, em silêncio. O silêncio é uma forma excelente de convívio. De trocar ideias. Os melhores amigos são os que conseguem falar calados, lado a lado, uma tarde inteira, sem se sentirem constrangidos com isso. Mas são difíceis de encontrar.

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