Por Gustavo Martins-Coelho

Antes de discutir o valor de cada uma das medicinas ditas alternativas, creio que é indispensável entrar um pouco mais em detalhe, relativamente à forma como o conhecimento biomédico é produzido, no campo dos tratamentos médicos. Para isso, é inevitável falar de ensaios clínicos.

Tal como expliquei, quando falei do método científico [1], referi que ele se desenrola ao longo de seis fases, uma das quais é a da realização duma experiência, que permita confirmar ou negar a hipótese que formulámos. Concretizando isto num exemplo, para facilitar, suponhamos um medicamento novo. A primeira fase do método científico, será observar que a molécula que compõe esse medicamento tem um determinado efeito em ratos de laboratório. A segunda fase será perguntar se o mesmo efeito se observará nas pessoas e se isso terá alguma utilidade. Então, formulamos a nossa hipótese: este medicamento tem determinado efeito nos seres humanos, semelhante ao que observámos nos ratinhos do laboratório. Ora, se tem esse efeito, então permitirá aliviar os sintomas de determinada doença. A fase experimental entra aqui e destina-se a verificar se isso é verdade. Para tal, pegamos num certo número de pessoas com a doença cujos sintomas achamos que o medicamento que estamos a testar permite aliviar e dividimo-las em dois grupos: a um, damos o medicamento; ao outro nada; e logo vemos o que acontece. Se as pessoas que tomaram o medicamento se sentirem melhor do que as que não o tomaram, então a nossa hipótese confirma-se e nós acabámos de descobrir um medicamento para tratar aquela doença, que podemos comercializar.

Só que, por vários motivos, isto não é assim tão simples; e um dos motivos por que isto não é assim tão simples é o efeito placebo: algumas das pessoas que tomaram o nosso medicamento não melhoraram por acção do medicamento propriamente dito, mas antes devido à ideia de que estavam a tomar qualquer coisa com esse efeito. De facto, a nossa mente é capaz de «simular» o efeito esperado dum medicamento, de modo que nós melhoramos mesmo, mas não devido a qualquer efeito prático dum medicamento.

Para contrariar o efeito placebo, então, o que fazemos não é dividir os participantes na nossa experiência em dois grupos, um dos quais toma o medicamento e o outro nada: ao grupo que não toma nada, chamado grupo controlo, na verdade dá-se qualquer coisa a tomar: um medicamento exactamente igual ao que damos ao outro grupo em termos de cor, cheiro, forma, etc., mas sem a molécula que estamos a testar. Então, nenhum dos grupos sabe se está a ser tratado ou não, pelo que ambos sofrem o mesmo efeito placebo. Para o nosso medicamento se mostrar útil, ele tem de demonstrar que as pessoas que o tomaram melhoraram mais, ou mais depressa, ou em maior número, do que as pessoas que tomaram o placebo, ou seja, ele tem de superar o efeito placebo.

Uma das objecções que recebo mais frequentemente, quando falo das medicinas ditas alternativas, é precisamente esta:

— Ah! Mas comigo funcionou!

Ou variantes:

— Ah! Mas com um amigo meu — ou com um familiar meu — funcionou!

É provável que sim. Mas é também provável que apenas tenha funcionado, porque a sua mente queria que funcionasse, devido ao efeito placebo. E é por isso que um tratamento, seja «alternativo» ou «convencional», para ser cientificamente aceite, tem de demonstrar, não que funciona, mas que funciona melhor do que um mero placebo. Porque, caso contrário, sempre sai mais barato tomar um comprimido de açúcar do que ir ao bruxo…

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