Por Hélder Oliveira Coelho


Eu tenho saudades do tempo em que as escolhas eram fáceis. Imagine-se a história, meu pai chamava-se Marco, Marco Geodésico. Minha mãe era Bússola, claro estava que o destino do filho seria ou ser marco geodésico, ou bússola. Mas não. Hoje, isso não acontece (e, entre nós, ainda bem). Haverá quem diga:

— Que saudades eu tenho de quando tudo estava já decidido. Há lá coisa melhor do que decidirem por nós?

Depois, chega o discurso da falência da juventude. Esta juventude já não está para isto. Meu avô já era marco geodésico. Minha avó bússola. Todavia, a juventude não quer queimar a moleirinha ao sol todo o santo dia. Não gosta de gelar com a geada, tremer ao relento ou dançar ad aeternum em busca do Norte. Hoje, um jovem pode almejar ser GPS. Dez anos de formação superior hão-de garantir que não mais a moleirinha há-de sofrer com o sol. Mas a busca do Norte? Disso nem o GPS se salva. Porque decidido continua que ele não há-de crescer. Será só um instrumento de apontar  ou marcar caminho. Não queima ao sol, mas não cresce para lá da marca.

Uma empresa faliu. O empresário, tão destruído como como os que a fazem, sofre a perda. Não — foge para um paraíso fiscl, com o dinheirinho que fazia falta para que a empresa não falisse. Parece que nada há em comum entre estas histórias, não é verdade? Mas, em bom rigor, é a mesma raiz que as alimenta. O desrespeito pela condição humana. A mercantilização do homem, a ablação do sonho.

Diz o poeta que o sonho comanda a vida. A vida que se quer é mais do que a que se define na vida da bactéria. É uma vida com justiça social. A que se conquistou com séculos de evolução. Evolução na saúde, na educação, na sociedade. Evolução só possível com a paz e a indústria. Foram o progresso e a paz que trouxeram à vida o que antes fora apenas sonho. Não deixemos que este esforço excepcional de gerações seja desbaratado. Não deixemos o ódio prosperar e o preconceito minar a confiança num futuro mais justo.

Sejam os velhos marcos, a antiga tecnologia da bússola, ou a novidade do GPS a indicar o caminho, ou a fazer parte dele. Sejam todos, porque todos têm o seu lugar, para o bom e o mau. Seja o Homem a adquirir o papel que sempre deveria ter tido, o da harmonia. A cada Inverno se sucede uma Primavera. Neste país de velhos, como já o dizem, só neste trimestre nasceram mais mil do que o suposto. Cada um destes miúdos merece que lhe deixemos um mundo melhor. Se não por nós, por eles. Que não mais voltem as guerras fratricidas a imperar na decisão. Que possamos ser marco geodésico, bússola, GPS ou qualquer outro mapa ou caminho, mas sejamos. E com o que somos façamos um País melhor, nas coisas pequenas do quotidiano ou nos grandes sonhos da humanidade.

Termino com uma homenagem às crianças. É para elas que tudo faz sentido. Para que não deixem de sonhar. Chegar à Lua já foi um sonho e já lá vão mais de cinquenta anos desde que se realizou.

Marmelada de banana, bananada de goiaba/Goiabada de marmelo/Sítio do pica-pau Amarelo, versos de Gilberto Gil. Música que abre uma das mais famosas séries infantis. Onde tudo é possível!

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