Por Gustavo Martins-Coelho


Às vezes, dá-me vontade de reler publicações antigas em blogues que sigo. No outro dia, estava no autocarro e calhou reler um blogue antigo, que remetia para uma notícia igualmente antiga, publicada pela RTP ainda antes das eleições legislativas de 2011, com o título: «Comissão Europeia desmente José Sócrates» [1].

Ao que parece, o então primeiro-ministro defendeu que o memorando de entendimento por ele negociado com a troika composta pela Comissão Europeia, pelo Banco Central Europeu e pelo Fundo Monetário Internacional continha medidas de ajustamento menos duras do que os documentos equivalentes assinados pelos governos da Irlanda e da Grécia [2]. Olhando para trás, isto seria provavelmente verdade e precisamente por esse motivo terá o primeiro-ministro que lhe sucedeu querido ir além da troika [3] em dureza das medidas de austeridade, para termos direito a um programa de ajustamento tão duro como o dos Irlandeses e dos Gregos. Afinal de contas, não somos menos (caloteiros) do que eles, logo merecemos o mesmo tratamento. Vá lá, que houve um governo a tratar-nos como merecíamos, em vez de tentar aligeirar as coisas com falinhas mansas!

Mas voltemos à vaca fria. Um par de dias depois, vem então a notícia da RTP (e não só, mas, como alinham todas pelo mesmo diapasão, tomemos a RTP como o tipo de jornalismo de que queremos falar) dizer que a Comissão Europeia disse, através dum obscuro senhor de óculos, Tardio de apelido, que o programa de ajustamento português era tão duro como o irlandês e o grego.

Em primeiro lugar, eu tenho alguma dificuldade em concluir isso das palavras do dito senhor de óculos. Ele disse, textualmente:

— O sr. Sócrates é o primeiro-ministro do governo de gestão português, e não do governo irlandês ou grego — até aqui, estamos de acordo. E continuou: — Não vou comentar os seus comentários, mas posso dizer que este é um programa duro — mais ou menos do que o grego e o irlandês? O nosso primeiro-ministro dizia menos; o senhor de óculos não estabelece comparações. Então, como pode a RTP afirmar que a Comissão Europeia desmentiu o primeiro-ministro português?

Mas o que é pior nem é isso. Já nos habituámos aos títulos à la Correio da Manhã, que só servem para captar a atenção de leitores incautos e são — os títulos, esses sim — desmentidos pelo corpo da notícia que se lhes segue. O que é pior é que a RTP (e mais uma série de meios de comunicação social) publicou esta notícia sem se preocupar em verificar os factos. Sim, os factos — que eram de fácil verificação, neste caso. Dum lado, o primeiro-ministro José Sócrates afirma que as medidas previstas no memorando de entendimento assinado pelo governo português e a troika são menos duras do que os programas de ajustamento irlandês e grego. Do outro, a Comissão Europeia diz que é um programa tão duro como o irlandês e o grego (vá, admitamos, por hipótese, que a Comissão Europeia disse mesmo o que o título diz que disse). E a RTP papagueia ambas as declarações, dizendo ao telespectador:

— Agora, escolha você em qual das versões prefere acreditar — sem que haja um jornalista a quem ocorra pegar nos três memorandos de entendimento, o português, o grego e o irlandês, lê-los, compará-los e esclarecer-nos quanto aos factos.

Este jornalismo… Jornalismo? Não! Isto nada mais é do que alcoviteirice! É repetir o que outrem disse! Esta alcoviteirice disfarçada de jornalismo só favorece o nascimento, a ascensão e a propagação dos factos alternativos. Pois se são os próprios jornalistas a dizer-nos que pode haver a verdade socrática e a verdade europeia, noticiando uma num dia e outra no dia seguinte, sem se preocuparem em verificar nenhuma delas, o que nos garante que não haverá por aí ainda mais verdades e factos alternativos escondidos?…

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