Por Gustavo Martins-Coelho

Tal como prometido há duas semanas [1], vou debruçar-me sobre algumas medicinas alternativas e o que elas têm para oferecer, sempre tendo em mente que as que são úteis devem ser disponibilizadas medicamente e as que não conseguem provar a sua utilidade devem ser abandonadas de vez e o charlatanismo severamente punido.

Comecei por pesquisar os Medical Subject Headings [2], da Biblioteca Médica Nacional norte-americana [3], uma das outras agências dos Institutos Nacionais de Medicina dos E.U.A. [4]. Estes Medical Subject Headings, habitualmente conhecidos como MeSH, são uma lista de termos de pesquisa, que permitem procurar na base de dados norte-americana de artigos científicos sobre assuntos biomédicos aqueles que nos interessam. Os MeSH identificam dezoito tipos de «terapias complementares», como eles lhes chamam [5], muitos deles divididos em subgrupos.

Comecemos, então, pela acupunctura. Dez estudos publicados nos últimos dezasseis anos demonstraram que a acupunctura não consegue aliviar a dor muscular, sendo, inclusivamente, menos eficaz do que um mero placebo [6], o que não deixa de ser curioso. A acupunctura supera, contudo, o placebo, relativamente à melhoria do movimento das articulações, mas, mesmo nesse campo, o efeito da acupunctura é menor do que o doutros tratamentos, nomeadamente os oferecidos pela medicina convencional [7].

Entretanto, para além destes dez estudos, outros oito demonstraram que, mudando o tipo de agulha utilizado, é possível obter resultados diferentes e efectivamente reduzir a dor muscular. Ainda assim, estes oito estudos são, do ponto de vista do método científico [8], questionáveis, pois não seguem todas as regras que um bom estudo — um estudo cientificamente robusto — deve seguir; e é por isso que, antes de nos lançarmos nesta modalidade de acupunctura, com agulhas especiais, necessitemos de estudos cientificamente mais sólidos, que demonstrem inequivocamente a utilidade da acupunctura no tratamento da dor muscular [9].

Outra área em que a acupunctura tem sido utilizada, na China e noutros países, é no tratamento da doença de Parkinson, seja como complemento, seja como alternativa. De facto, existem estudos em animais que apontam no sentido de que esta técnica possa ter utilidade; e existem estudos em humanos que indicam que é possível reduzir a medicação convencional — e, portanto, os seus efeitos secundários — com o recurso à acupunctura. No entanto, estes estudos são ainda iniciais e de pequena dimensão, sendo necessário complementá-los com ensaios clínicos de grande dimensão, capazes de demonstrar inequivocamente o benefício da acupunctura no tratamento da doença de Parkinson [10].

Mas nem sempre a acupunctura precisa de agulhas. É possível interferir com os pontos que compõem os meridianos em que se baseia a acupunctura doutras formas, nomeadamente colocando sobre eles emplastros com plantas medicinais ou outro tipo de produtos naturais. Esta é uma técnica milenar, proveniente do Oriente, a respeito da qual dezasseis estudos científicos, publicados nas últimas décadas, apresentaram resultados encorajadores em relação ao tratamento da asma. No entanto, as observações, até à data, não são totalmente conclusivas [11].

A acupunctura, sob diversas formas — desde a utilização das agulhas tradicionais até à estimulação laser, passando por emplastros de pimenta, electro-acupunctura e acupressão — também sem sido usada para prevenir as náuseas e os vómitos, nas pessoas que são operadas, após a cirurgia. Particularmente, diz-se que o ponto PC6, no pulso, tem uma acção directa na prevenção das náuseas e dos vómitos pós-operatórios. A ciência diz-nos que talvez isso seja verdade. De facto, quando comparada com um placebo, a acupunctura parece prevenir eficazmente as náuseas e os vómitos após uma cirurgia, embora, mais uma vez, a qualidade dos estudos em que se baseia esta afirmação seja baixa. Quando comparada com a medicação habitualmente dada aos doentes, a acupunctura parece ser equivalente; e a boa notícia é que, não sendo os melhores estudos de sempre, os estudos que demonstraram essa equivalência entre a acupunctura e a medicação fornecida nos hospitais são de melhor qualidade do que os anteriores. Finalmente, quando adicionada à medicação convencional, ou seja, quando usada como medicina complementar, segundo a definição do Centro norte-americano para a Saúde Complementar e Integrativa [1], os estudos são inconclusivos, quanto à capacidade da acupunctura de melhorar a acção da medicação.

Portanto, em jeito de conclusão desta primeira parte, ainda não está demonstrada, para lá de qualquer suspeita, a utilidade da acupunctura em nenhuma das funções que hoje abordei — dores musculares, doença de Parkinson, asma e náuseas e vómitos pós-operatórios.

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