Por Alice Santos

Quando me convidaram para escrever sobre poesia no blogue [1], a minha primeira reacção foi de entusiasmo — embora com algum receio, por estar envolvida noutras ocupações. — Gosto de poesia, conheço muitos poetas, não vai ser muito difícil… — pensei, nesse primeiro instante.

Na verdade, de início, fui conseguindo conciliar a escrita com o «Coral de Letras», a participação em encontros de poesia, o trabalho, a família, etc…

Contudo, e devido a factores vários, nos últimos meses foi impossível partilhar convosco as colunas que deveriam ser mensais.

Aos que costumam ler os meus versos e, também, o que escrevo sobre a poesia de autores portugueses, tenho de pedir que me desculpem esta falha. Apenas vos posso dizer que tentarei «regressar à normalidade» com a celeridade possível.

E, sem vos aborrecer com mais palavreado, passo a apresentar Alberto Estima de Oliveira.

Estima de Oliveira nasceu a 1 de Julho de 1934, em Lisboa. Partiu com destino a Angola, Benguela, em 1957 e, mais tarde, para a Guiné-Bissau.

Desde cedo se dedicou à poesia, pois os primeiros versos remontam aos seus 18 anos e foram publicados nos cadernos «Vector II e III» (Huambo, Nova Lisboa) e na «Kuzuela III  1ª antologia de poesia africana de expressão portuguesa» (Luanda), coligida por David Mestre. Em 1972, foi publicado o seu primeiro livro, cujo título, «Tempo de Angústia», deixa transparecer os tempos difíceis que se viviam.

De 1982 a 2004, residiu em Macau. Foi aí, na bela cidade do Santo Nome de Deus, que tive a honra, o privilégio de com ele conviver durante vários anos.

Em Macau, deu-nos a conhecer «Infraestruturas», em 1987, «Diálogo do Silêncio», em 1988, «Rosto», em 1990, «O corpo (con)sentido», em 1993, «Esqueleto do Tempo» em 1995, «O Sentir», em 1996. Em 2003, lança «Mesopotâmia  espaço que criei».

Mesmo depois de regressar a Lisboa, onde tinha residência fixa, Estima de Oliveira manteve contacto regular com Macau e visita a cidade uma última vez, em Dezembro de 2007, para se despedir de um grande amigo, José Silveira Machado (outro nome a lembrar nesta coluna).

Algumas das suas obras foram traduzidas para e publicadas em Chinês, como é o caso de «Infraestruturas» (Kei Tcho) (Macau, 1999) — bilingue PT-CN.

Em 1999, ganhou o «International grand prize for poetry» no «The international festival Curtea de Arges poetry nights», na Roménia.

Foi agraciado pelo Governo de Macau com a «Medalha de Mérito Cultural».

Na obra de Estima de Oliveira, sentimos que o «poema vem, bardo, das entranhas», de um «corpo (con)sentido», de um «rosto» onde as marcas do tempo se fixaram. Estima dizia «com dedos charrua / escreverás o poema / com mãos de girassol / inventarás o poente / aos sulcos ressequidos / lançarás a semente».

Mas, era ele mesmo quem lançava sementes nas noites em que fervilhantes silêncios eram sacudidos pelo vento forte do tufão que era a sua poesia. Fosse no «Tai sam um», ou noutro qualquer restaurante, sabíamos que era «uma janela aberta / no abismo da saudade / local de encontros» que «tem peónias por dentro / forrando um outro horizonte / da densidade da vida”».

Tentei distanciar-me do facto de ser amiga de Estima de Oliveira e abordar apenas a sua poesia, mas é impossível — tal como é impossível ficar indiferente ao seu legado. Não foi apenas a sua obra impressa que nos deixou; mais do que nos livros e nos CD, Estima imprimiu em nós a sua sensibilidade, a sua magia. Por isso, deixo-vos, também, algumas das palavras que escrevi há tempos.

Conheci o Estima através de um grande amigo comum, Silveira Machado — também já desaparecido. Nesse tempo, não havia «Facebook», nem qualquer outra rede social. As pessoas eram amigas mesmo. E o Estima era-o com todas as letras. Para uns era Alberto, para outros Estima, mas para todos era o amigo. Aquele que estava sempre por perto.

Era um ser encantador. A sua capacidade de amar era cristalina, como a água da famosa Fonte do Lilau o foi um dia. A sua presença enchia o local onde se encontrava. Fosse num restaurante, ali para os lados do Leal Senado («Tai sam un»?), fosse na casa de algum amigo, mesmo que não dissesse um poema, dele emanava sempre aquele sorriso doce que só um ser que sente a vida como ele a sentia sabe dar tão espontânea e desinteressadamente.

Os seus versos eram guloseimas que nós — quais miúdos ávidos de doces — saboreávamos até os lábios ficarem gretados. Tínhamos sede da sua poesia e, sempre que podíamos, bebíamos, bebíamos… Os seus versos eram magia que tirava da cartola da vida. A cumplicidade entre a realidade que absorvia nas gentes e o fingimento do poeta era visível nas palavras escritas, ou ditas, por ele. Os seus versos moldavam-nos as emoções. Quantas vezes ficávamos de olhar molhado ao ouvi-lo…

Estima era assim.

O meu grande amigo que, em 1989, escreveu «Para Alice, não no país das fadas, mas no Diálogo do Silêncio que Macau nos inspira. Aquele abraço pelo teu aniversário.» deixou-nos a 1 de Maio de 2008.

Esta foi a forma que encontrei para lembrar que continua vivo, que a sua poesia flutua no pólen dos dias, qual bola de sabão soprada ao sabor do vento pela criança que há em nós.

Deixo-vos um poema retirado do livro «Diálogo do silêncio», editado pelo Instituo Cultural de Macau, em 1988.

Das mãos
Fluem os sonhos
Que a mente
Não pode ter
 
Pontos de seda
Bordando
A ilusão
De viver.
 

Estima despedia-se sempre com um «até já», mas, no poema que escolhi para finalizar, parece anunciar um fim, uma despedida. Há «um silêncio intemporal e profundo», transparente e negro nestes versos tão singelos. Há um último volver de rosto e um derradeiro «até já»…

é um impacto neutro
 uma porta já aberta
 
 e cai-se
 num silêncio
 intemporal
 e profundo
 como se
 por artes mágicas
 entrássemos
 noutro mundo…
 
 algumas pancadas na porta grande
 a velha casa tremeu
 
 silêncio.

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