Por Gustavo Martins-Coelho


 

Há quase cem anos, na Alemanha [1]

Em 1933, os livros escritos por judeus foram queimados publicamente e os ataques perpetrados contra judeus ou a sua propriedade deixaram de merecer a protecção da polícia e dos tribunais. As lojas judias foram boicotadas pelos consumidores, de moto próprio ou instigados pelas SA do partido nazi.

Em 1934, as faculdades de medicina, medicina dentária, farmácia e direito expulsaram os estudantes judeus. O serviço militar deixou também de admitir judeus.

Em 1935, os casamentos mistos, entre judeus e arianos, foram proibidos.

Em 1936, os judeus perderam a nacionalidade alemã e, com isso, o direito de voto, à protecção social do Estado e à emissão de passaporte. Foram também banidos de parques, restaurantes e piscinas; e proibidos de adquirir equipamento eléctrico e óptico, bicicletas, máquinas de escrever e discos. A expulsão de estudantes generalizou-se às restantes faculdades.

Em 1938, os judeus receberam bilhetes de identidade especiais e a letra jota carimbada nos passaportes. Foram excluídos também do cinema, dos concertos, das exposições, da praia e dos hotéis. Foram obrigados a alterar o nome e as crianças judias juntaram-se aos estudantes universitários na condição de impedidas de frequentar a escola. A 9 de Novembro, as sinagogas foram queimadas, as lojas destruídas e um número elevado de judeus assassinado ou preso.

Em 1939, os judeus foram expulsos de suas casas, os seus rádios confiscados e um recolher obrigatório estabelecido. E começou a II Guerra Mundial…

Em 1940, os telefones dos judeus foram-lhes confiscados e perderam o direito às rações alimentares e a roupas.

Em 1941, os judeus foram obrigados a trazer uma estrela de David no braço e proibidos de usar telefones públicos, de ter cães, gatos e pássaros e de sair do país.

Em 1942, foram-lhes confiscados os casacos de peles e de lã e foram proibidos de adquirir ovos e leite.

A partir de 1943, os campos de concentração tornaram-se a solução final para os judeus.

Em 1945, o mundo pensou que isto não voltaria a acontecer.

Em 2004, passou a ser possível extraditar cidadãos europeus dum Estado-membro para o outro por gravíssimos crimes, tais como: posse de 0,45 gramas de cannabis; roubo de dois pneus de automóvel; conduzir com 0,81 mg de álcool por litro de sangue; roubo dum leitão; roubo de dez galinhas; comprar, sem saber que o estava a fazer, um telemóvel roubado; e roubo de £20 de combustível [3].

Em 2011, os Gregos foram apresentados ao mundo civilizado como o povo preguiçoso que veio de mão estendida pedir aos Alemães trabalhadores que lhes perdoem as dívidas [4].

Entre 2011 e 2015, a nossa própria Constituição foi vista pelos nossos governantes eleitos como um entrave à sua boa governação [5].

Desde 2012, a embaixada do Equador em Londres alberga um prisioneiro político. [6]

Em 2014, na Hungria, todos os juízes com mais de 62 anos (um décimo do total e metade dos mais influentes) foram saneados e substituídos por boys; o Supremo Tribunal de Justiça foi substituído por um órgão eleito pelo parlamento por nove anos, com os mesmos poderes e ainda o de nomear juízes para processos concretos e de fazer os processos transitar entre comarcas; o presidente do Supremo Tribunal de Justiça foi substituído pela mulher dum dirigente do partido do poder, o qual se gabava de ter escrito uma nova Constituição num tablete; a nova autoridade da comunicação social, insubstituível por nove anos, é dirigida por um ex-deputado do partido do Governo e tem o poder de aplicar multas aos órgãos de comunicação social; a Constituição passou a proibir dormir na rua; e diversas leis são discutidas no fim-de-semana e aprovadas à Segunda-feira de manhã, com a oposição a abandonar o parlamento; e o Tribunal Constitucional ficou vedado de decretar a inconstitucionalidade de certas leis [7].

Desde 2015, os imigrantes e os refugiados morrem em barda a tentar atravessar o Mediterrâneo de barco ou o Canal da Mancha pelo túnel. Os que conseguem sobreviver são remetidos para campos de refugiados, onde passam a viver em condições desumanas [8].

Em 2015, os refugiados foram acusados de violar mulheres em massa na passagem de ano, na Alemanha. Nada veio a ser provado [9]. A Hungria ergueu uma barreira na fronteira com a Sérvia, para impedir a entrada de refugiados [10].

Em 2016, um bar austríaco anunciou ser uma zona livre de refugiados, após proibir a sua entrada e contratar seguranças para garantir o cumprimento da norma [11]. A Dinamarca anuncia planos para confiscar os bens dos refugiados, como forma de obter pagamento «sim, pagamento, como se eles fossem turistas em férias e os espaços de acolhimento hotéis de cinco estrelas» pelo acolhimento em solo dinamarquês [12].

Onde vamos parar?

Anúncios