Por Gustavo Martins-Coelho

Prossigo hoje a dissertação sobre o papel da acupunctura no tratamento de diversas doenças. Depois de, há duas semanas [1], ter falado da dor muscular, da doença de Parkinson, da asma e das náuseas e dos vómitos pós-operatórios; e de, na semana passada [2], ter abordado o cancro; hoje, é a vez da artrose, da azia, das dores menstruais, da incontinência urinária e da dor talâmica.

Começando pela artrose, que afecta uma grande parte dos idosos, os dados mais recentes indicam que a utilização da acupunctura está associada a reduções significativas da intensidade da dor e à melhoria da mobilidade funcional e da qualidade de vida, pelo que pode ser uma alternativa aos analgésicos tradicionais nos doentes com artrose [3]. No caso particular da artrose do joelho, além da acupunctura com agulhas [4], também a moxibustão — que é uma forma de acupunctura, em que, em vez de agulhas, se usam plantas medicinais, que se deixam queimar sobre os pontos de acupunctura — mostrou ser equivalente aos medicamentos tomados por via oral ou às injecções intra-articulares, podendo ser, por isso, considerada como alternativa no tratamento da artrose do joelho [5].

No entanto, há três ressalvas a fazer, relativamente à acupunctura [6]: a primeira é que muitos dos estudos em que se baseia esta informação não cumprem todas as normas necessárias para serem considerados de elevada qualidade científica; a segunda é que mesmo a acupunctura feita com uma agulha falsa obtém resultados positivos, o que indica que, provavelmente, existe um forte componente placebo [7] nos resultados obtidos pela acupunctura; e a terceira é que os exercícios de fortalecimento muscular obtêm resultados equivalentes aos da acupunctura. Estas três ressalvas devem-nos fazer moderar o optimismo e manter uma dose saudável de cepticismo, antes de nos lançarmos em tratamentos alternativos, abandonando os actualmente recomendados medicamente.

Relativamente à aplicação da moxibustão na artrose do joelho, de que falei anteriormente, há também duas ressalvas a fazer [8]: a mesma falta de qualidade dos estudos científicos sobre o tema, que já referi a propósito da acupunctura com agulhas; e o problema da duração do efeito terapêutico, que parece ser inferior a dois meses.

Em relação à azia, a acupunctura do meridiano gástrico parece ter um efeito positivo, inclusivamente superior ao da medicação. Infelizmente, mais uma vez, os estudos científicos em que se baseia esta conclusão são perigosamente fracos [9] e, muitas vezes, contraditórios [10], pelo que devem ser interpretados com precaução. Além disso, nem todos os tipos de azia são iguais [11] e alguns podem ser sintomas de situações mais graves, nomeadamente úlceras do estômago, pelo que o melhor é sempre consultar um médico.

Passando às dores menstruais, os poucos estudos sobre o assunto indicam que a acupressão e a moxibustão aliviam a dor [12, 13] a curto prazo [14], enquanto a acupunctura permite melhorar a qualidade de vida, tanto na componente física, como na mental [12]. No entanto, como de costume, continua a faltar um ensaio cientificamente inquestionável.

Sobre a incontinência urinária de esforço, existe apenas um estudo científico; e a informação nele constante é insuficiente para permitir determinar se a acupunctura é capaz de substituir o tratamento farmacológico [15].

A dor talâmica é um tipo de dor que acontece em 12 % das pessoas que sofrem um acidente vascular cerebral. Nestes doentes, o tálamo, que é a parte do cérebro [16] responsável pelo processamento dos estímulos exteriores, passa a interpretar o tacto [17] e as sensações térmicas [18] como dor [19]. Infelizmente, é dificílimo aliviar este tipo de dor; e a acupunctura também não tem qualquer utilidade [20].

Por hoje, fico por aqui. Antes de terminar, quero apenas reiterar que, mesmo onde os resultados são promissores, ainda é cedo para assumir a acupunctura como tratamento padrão de qualquer doença.

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