Por Gustavo Martins-Coelho

Tenho uma relação de amor e ódio com os livros: odeio-os até à página cinquenta; amo-os daí em diante. Excepto uma vez. Cheguei à página cem sem ter percebido a primeira frase da primeira página e todas as que se lhe seguiram. Insisti em adicionar, palavra após palavra, mais frases, parágrafos e páginas à minha incompreensão, com pressa de chegar à última página do último capítulo e enfim arrumar o livro na prateleira, como quem se desempenha duma dívida maldita, para jamais voltar a folheá-lo. Mas não desisti; nunca deixei um livro inacabado. Ler um livro é um compromisso do leitor com o escritor. Eu sou o leitor; comprometo-me com o escritor e cumpro os meus compromissos.

Não sou escritor. Um tipo verte um par de alarvidades sem semântica nem gramática e já se acha escritor. Eu não sou escritor. Respeito demasiado a escrita, para dizer que sei fazê-la. Não sei. Não sei! Não sei!! É público que uma das minhas maiores frustrações é fazer um uso sofrível da Língua Portuguesa: metáforas de trazer por casa, citações comezinhas, comparações óbvias, figuras de estilo sem ele [1]. Mas não posso mudar: de Homero, a Odisseia traguei-a ao longo de dois penosos anos; uma frase — e uma sesta! Nem tive coragem de pegar na Ilíada e meço Virgílio pela mesma bitola.

Nunca tive um livro «Onde está Wally?». Mas tenho uma camisola vermelha, branca e azul, às riscas, que, juntamente com os óculos que me permitem enxergar o mundo, me dão um ar algo parecido com ele. Mas não sou de forma alguma tão difícil de encontrar. Basta chamar-me e eu apareço. O que nunca percebi é por que nós, Portugueses, que falamos Português, não traduzimos o nome do Wally e os Americanos, que falam o mesmo Inglês que o criador do Wally, tiveram de lhe mudar o nome para Waldo. Vá lá que, ao contrário do que fizemos com os Estrumpfes, que passaram a Smurfs [2], mantivemos o nome do Wally, em vez de o americanizar.

A globalização não é globalização, é americanização. Eu digo:

— Chega de americanização! Abaixo!

Estou calmo. Não parece? Mas é verdade. Estou calmo. Estou bem. Enquanto mantiver a sanidade mental suficiente para estrebuchar contra as coisas que me aborrecem, estou bem.

Aborrece-me a americanização.

Já não se fazem peditórios. Diz que é tão século XX! Hoje em dia, faz-se crowdfunding, que é muito mais chique, embora não tão rendível. E as latas onde se punham as moedas — tão possidónias! Foram genialmente substituídas por PayPal, que é muito mais moderno! E americano. Um crowdfunding é uma forma moderna e americana de fazer um peditório. O facto de, cá pelo burgo, andarmos encantados com ela, só diz da nossa inteligência colectiva. A verdade é que um em cada dois portugueses tem uma inteligência inferior à mediana.

Não, não sou eu que o digo, nem estou armado em velho do Restelo, ou profeta da desgraça. É meramente uma verdade estatística. A mediana é o percentil cinquenta. Por definição, metade de qualquer amostra ou população tem de estar abaixo e metade acima do percentil cinquenta dessa amostra ou população. Portanto, se metade da população está abaixo do percentil cinquenta, abaixo da mediana, metade da população tem uma inteligência abaixo da mediana. Um em cada dois portugueses. Ainda assim, Portugal deve ser o país com a população mais qualificada do mundo. Cada português é profusamente especializado em absolutamente tudo. Pelo menos, é o que parece, a avaliar pela forma displicente com que está sempre pronto a emitir opinião sobre qualquer assunto que lhe venha parar às mãos. Se, ao menos, os argumentos fossem baseados em factos verdadeiros… Gente que vive e disserta sobre a política como se fosse futebol irrita-me. Ando todos os dias irritado.

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