Por Alice Santos

Após algum tempo de ausência, a única forma que encontro para me redimir é, este mês, partilhar mais do que um poema.  Esperando ser perdoada, aqui vos deixo alguns dos versos escritos em 2014 e já publicados em colectâneas.

Porque há dias em que tudo é negro e a raiva, a dor, a dúvida nos assolam e só apetece gritar «não»…

Não! Hoje não…
Não acredito na poesia!
Hoje ela não existe.
Não está em tudo e em todos!
 
Que versos escrever
Com as lágrimas de mãe
Escondidas num sorriso doce?
 
Que estrofes guardar
No peito de um pai
Apertado pela impotência?
 
Que rimas cantar
Ao amanhecer
Se não há vida lá fora?
 
Que poema gritar
Na noite sem luz
Se a solidão é ensurdecedora?
 
Não! Hoje não…
Não pode haver poesia
Se há apenas dor e sofrimento.
 
Hoje todos os versos
Fugiram do poema
Que tanto te queria escrever.
 

Porque, por vezes, as lembranças afloram…

Houve um tempo
em que te lia
sílaba a sílaba
descobrindo novas palavras
inventando caminhos
desbravando
cada frase do teu corpo
poro a poro…
como um poema sem fim.

Porque a esperança é a última a morrer, o sol irá brilhar e a poesia será sempre vencedora…

Não mais haverá medos,
nem sombras,
nem lágrimas ao adormecer.
A noite, acolhedora, albergará amantes,
lembrará os lírios do jardim,
o aroma a hortelã à mesa pela manhã.
Não mais se ouvirão os silêncios doloridos,
derramados nos olhos orvalhados,
nem o eco dos gritos retraídos
escorrendo pelos telhados.
O novo dia virá!
Prenhe de sonhos em flor,
pleno de segredos em festa.
Brotarão dos olhos jasmins exalando sorrisos.
Germinarão dos lábios beijos,
quais camélias brancas,
esvoaçando como borboletas carmim
poisando no poema que transborda do meu peito.

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