Por Gustavo Martins-Coelho


 

O Ricardo [1] é um pândego.

Começa o seu artigo [2] com as seguintes duas frases: «O herói da esquerda é o trabalhador. O da direita é o empreendedor que melhor satisfaça o consumidor.»

O Ricardo é um pândego equivocado. O debate entre a esquerda e a direita não é um debate sobre quem são os heróis. O debate sobre quem tem os melhores heróis faz-se entre a DC [3] e a Marvel [4].

A diferença entre a esquerda e a direita não é sobre se os privilégios devem ser atribuídos aos trabalhadores ou aos empreendedores. A diferença entre a esquerda e a direita é sobre se deve ou não haver privilégios e indivíduos privilegiados. Parafraseando o Dylan Matthews [5], a diferença entre esquerda e direita é que esta pretende tornar o acesso ao topo da pirâmide mais justo «através da igualdade de oportunidades para todos e cada um que se desenvencilhe», enquanto aquela pretende achatar a pirâmide. Ou seja, aproximar os mais pobres dos mais ricos. E porquê? Porque é impossível, a qualquer pessoa na posse das suas mínimas faculdades mentais, acreditar que que o patrão que ganha duzentas vezes mais do que o trabalhador seja duzentas vezes mais inteligente, trabalhador e competente do que este [6]. A variabilidade biológica individual não explica uma tão grande diferença de resultados e a variabilidade extrínseca ao indivíduo supõe-se anulada pela tal igualdade de oportunidades.

Além disso, se houver mesmo heróis, ao menos, a esquerda tem a vantagem de ter por herói alguém que existe — o trabalhador — enquanto o herói da direita — o empreendedor que melhor satisfaça o consumidor — é uma construção teórica sem correspondência com a realidade. Portanto, na hora de votar, talvez devamos escolher quem faz propostas para pessoas concretas…

Por que é que o herói da direita não existe? Porque o objectivo do empreendedor não é satisfazer o consumidor; é obter retorno sobre o seu empreendimento. A satisfação do consumidor é, na melhor das hipóteses, um meio para atingir um fim, ou um dano colateral e, na pior, uma ilusão «ao empreendedor, basta conseguir convencer o consumidor de que é capaz de o satisfazer, através, por exemplo, da publicidade». Melhor ainda: se o empreendedor conseguir remover o consumidor da equação, isto é, se conseguir empreender em áreas sem relação com o consumo, melhor ainda «para o empreendedor».

Quer uma prova do que estou a dizer, caro leitor? Lembra-se, há cerca de dois anos, aquando da falência do Grupo Espírito Santo e do seu banco «que só não faliu, porque falência, no sector da banca, passou a chamar-se resolução — e então o BES, em vez de falir, foi resolvido» — lembra-se de que a Portugal Telecom ia sendo arrastada no vórtice da falência do Grupo Espírito Santo, por causa de novecentos milhões de euros que empatara em papel comercial da Rioforte [7], os quais, da noite para o dia, nada valiam? Isso foi só um negócio que correu mal. Se tivesse corrido bem, a Portugal Telecom teria apresentado chorudos lucros e remunerado os seus empreendedores accionistas com os resultados, não da satisfação do consumidor, mas duma mera operação financeira — como muitas outras que terá feito, que engrossaram as contas bancárias dos gestores e dos accionistas, sem que os consumidores tenham ficado um grama mais satisfeitos por causa disso.

Quer mais provas, caro leitor? Há uns anos, li, já não sei onde, a propósito dum aniversário da Sonae, um artigo que contava a história do grupo e dizia, a páginas tantas, que, durante uma parte não despicienda da sua história, a principal fonte dos lucros do grupo não fora o Continente, nem a Optimus, nem qualquer outra empresa que satisfizesse consumidores: tinha sido somente a realização de mais-valias na gestão de participações sociais — ou seja, mais ou menos especulação. A Sonae, durante quase uma década «se não me falha a memória desse artigo, que, infelizmente, não consegui reencontrar», produziu o grosso dos seus lucros apenas por entrar no capital de diversas empresas e vender essa participação mais cara passado algum tempo, sem que a isso correspondesse qualquer melhoria real da empresa em termos de inovação, tecnologia, etc. — e muito menos da satisfação dos consumidores.

Estes são os grandes empreendedores, heróis da direita, que diz que satisfazem o consumidor.

Além disso, onde estariam os empreendedores, sem os trabalhadores?

A diferença entre a esquerda e a direita é também essa. Para a direita, os empreendedores têm ideias fantásticas, que lançam no mercado, e os consumidores ficam tão encantados com o novo produto, que compram até atafulharem de dinheiro os bolsos dos empreendedores. Para a esquerda, os empreendedores até podem ter ideias fantásticas, mas, sem alguém que os ajude a pô-las em prática «chamam-se trabalhadores, essas pessoas», as maravilhosas ideias dos empreendedores nunca veriam a luz do dia.

A esquerda sabe também que, se não houver uma entidade externa que regule a relação entre os empreendedores e os trabalhadores, aqueles farão tudo para ficar com uma fatia desproporcionada do lucro proveniente da satisfação dos consumidores. É por isso que, para a esquerda, é importante que haja um salário mínimo e um subsídio de desemprego: porque, se não houver tais benefícios para os trabalhadores, sempre haverá, entre os desempregados, alguém com as mesmas qualificações, que aceite fazer o mesmo trabalho por um salário mais baixo.

Além disso, a existência dum limiar inferior, abaixo do qual, literalmente, não se pode ou não compensa trabalhar, promove a inovação e a automatização da economia, visto que é necessário encontrar uma forma mecânica de fazer esses trabalhos que o ser humano não faz [8]. E a inovação é uma coisa boa, não é?

Acontece-me sempre isto: quero falar duma coisa e acabo a falar doutra.

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