Por Gustavo Martins-Coelho

Falemos um pouco mais de acupunctura; desta vez, da sua utilidade na prevenção das perturbações do sono [1]: além duma boa higiene do sono [2, 3], a acupunctura foi recentemente validada por uma revisão de 31 estudos, que confirmaram a sua utilidade na prevenção das perturbações do sono, nas mulheres que iniciam a menopausa [4]. No entanto, no caso da insónia primária, isto é, da insónia que não está relacionada com uma causa aparente, os estudos, embora também sugiram um efeito positivo da acupunctura, pelo menos equivalente, se não superior ao dos medicamentos de que dispomos (e certamente com menos efeitos secundários) — embora sugestivos, esses estudos não são ainda conclusivos: falta-lhes qualidade metodológica, dimensão e visibilidade [5, 6]. Inclusivamente, há indicações de quais os neurotransmissores [7] envolvidos [6], o que é um facto muito importante, dado que uma enorme dificuldade na aceitação da acupunctura (e doutras medicinas ditas alternativas) é, precisamente, a falta de explicação do seu mecanismo de acção — nós tendemos a não gostar de coisas que não sabemos como funcionam… Concluindo, o que se pode dizer do papel da acupunctura na insónia é: ainda é preciso estudar melhor os seus resultados, antes de afirmar definitivamente se é ou não eficaz, em qualquer uma das suas formas [8, 9].

Passemos à doença de Alzheimer. Os estudos científicos apontam no sentido de que a acupunctura, isolada ou em combinação com a medicação, contribua para melhorar o estado cognitivo dos doentes que padecem desta patologia [10]; e, também neste caso, há já estudos de laboratório, que começam a lançar alguma luz sobre o mecanismo de acção da acupunctura [11, 12].

Na hipertensão, o cenário é o mesmo: os estudos mostram que a acupunctura com agulhas ou a moxabustão podem ser associadas à medicação habitualmente usada para controlar a tensão alta, com resultado melhor do que a medicação sozinha, mas o seu efeito não é suficiente para substituir por completo a medicação. O problema continua a ser a diminuta qualidade científica dos estudos em que esta conclusão se baseia [13, 14, 15].

Relativamente às doenças ou alterações do aparelho digestivo, nomeadamente em situações de pós-operatório, mas não só, podemos dizer, globalmente, que ainda não foi possível verificar qual a utilidade da acupunctura (ou da moxabustão), muito por culpa da falta de qualidade científica dos estudos sobre o tema [16, 17, 18, 19, 20]. Embora haja, como sempre, alguns resultados encorajadores, pensa-se que, sobretudo no caso da síndroma do intestino irritável, estes terão mais que ver com o efeito placebo [21] e uma preferência pessoal dos doentes pela acupunctura, do que com a sua real utilidade [22].

No caso das doenças de pele, faltam estudos de elevada qualidade científica, embora os que existem tenham apresentado resultados promissores em várias destas doenças [23, 24]. Uma excepção é a psoríase, em que os vários estudos apresentam resultados contraditórios, não sendo, por isso, possível tirar qualquer conclusão [25].

Para além da dor talâmica, a respeito da qual referi há duas semanas não ter a acupunctura qualquer utilidade [26], os acidentes vasculares cerebrais também podem ter como consequência dores no ombro, se afectarem a região do cérebro que comanda o membro superior. Para esta, contudo, as notícias são melhores: os estudos científicos indicam que a acupunctura, associada ao exercício, poderá ser útil. Faço, no entanto, a ressalva do costume: nada disto é matéria absolutamente confirmada, sendo necessário estudar melhor se a acupunctura deve ser integrada na prática médica e de que forma [27]. Posto isto, um pouco de loucura, porque a ciência também é feita destes insólitos: o veneno de abelha parece aliviar a dor, nestes casos que referi [28]. Como diria o saudoso jornalista Fernando Pessa, e esta, hem??

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