Por João Roncha

Ontem, revi o clássico do cinema de 1979, «Manhattan», de Woody Allen, marcado por uma beleza visual, auditiva e — claro está — verbal, tal como todas as películas do género em que se insere Woody. Este filme depende de uma série de discursos alongados para fazer valer os seus pontos. O primeiro, previsivelmente, abre o filme. A personagem de Woody Allen, Ike Davis, tenta escrever uma história ou um livro de memórias e, ao mesmo tempo, impedir que a sua ex-mulher, interpretada por Merryl Streep — com quem, inclusive, possui um filho em comum, agora partilhado com a sua nova companheira, numa relação homossexual —, lance um livro onde aborda alguns aspectos da vida do casal. Ike faz de Nova Iorque uma obra de arte, uma ode à sua beleza muito própria, homenageando a sua cidade num filme a preto e branco, ou seja, num filme dos anos quarenta, do tipo que ele próprio, Woody Allen, teria visto em criança. As personagens falam incessantemente sobre arte, encontram-se  em museus e galerias e escrevem e ensinam sobre arte. Tentam criar a arte sobre a arte, ou a arte pela arte — uma das temáticas que me chamaram a atenção para este filme, devo confessar!

Muito em sintonia com o movimento de Woody Allen, no seu discurso, os restantes intérpretes igualam as suas temáticas: debatem-se e discutem obras de arte com as pessoas que as fazem ou vice-versa — entre elas, Diane Keaton a sua eterna musa, ou Michael Murphy. Num dos diálogos, logo no início do filme, Mary e Yale, um par de críticos, enumeram e exaltam um grupo de criadores, apelidando-los de «a academia dos sobrestimados» e referenciando, entre eles: Sol Lewitt, Gustav Mahler, Isak Dinesen, Carl Jung, Scott Fitzgerald, Lenny Bruce, Norman Mailer, Heinrich Boll e Ingmar Bergman. No entanto, para Ike, com a sua postura sempre sincera, todos estes são «fantásticos» — há quem possa denotar um tom de ironia, há quem veja as coisas sob outro prisma: um grupo interessante de pessoas, como o elenco de um filme de Fellini.

A trilha sonora de «Manhattan», constituída de canções compostas por George Gershwin, realizadas pela Orquestra Filarmónica de Nova Iorque, conduzida por Zubin Mehta, e pela Orquestra Filarmónica de Buffalo, conduzida por Michael Tilson Thomas, foi publicada pela primeira vez em 1979 pela CBS e pela Columbia, em formato de CD.

Na sua essência, este filme é sobre fazer as pessoas crer e consumir obras de arte e tratá-las como tal, julgá-las, falar e escrever sobre elas, sem nunca esquecer o amor e a felicidade que a arte assume na vida de algumas pessoas. Ser feliz, amar e ser amado são três das coisas mais almejadas pela humanidade e a pressão de encontrar uma certa forma de paz interior numa cidade como Nova Iorque — que podia ser qualquer outra: Berlim, Paris, Londres, qualquer metrópole que represente a azáfama e as tentações mundanas e urbanas, as relações conturbadas e obsessivas ou a euforia e excessos —, onde emana revolta e caos exterior, contrasta com a depressão e a tristeza de outros. É um filme sincero, honesto e brutal, transformado, como sempre, com mestria pelo génio de Woody Allen, que parece tirar de cada uma dessas situacões uma forma de comédia inteligente, sagaz e própria — também esta — de ser arte consumida.

Ficha técnica:

Direcção: Woody Allen. Elenco: Woody Allen, Diane Keaton, Michael Murphy, Merryl Streep e Mariel Hemingway. Género: comédia. Classificação: maiores de 16. Duração: 96 minutos. Ano: 1979. Local: Manhattan

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