Por João Roncha[a]

É difícil escrever e digerir sobre o novo filme de Almodovar, uma semana após o ter visto, a partir da visão, da pobreza e da decepção.

Pobre e decepcionante são as palavras que, infelizmente, me merecem um comentário para este filme.

Sempre as mulheres protagonistas, mas desta vez retratadas sem qualquer força — ou esperamos apenas a aceitação de um destino com um pouco de sorte onde os homens ou estão à mercê do vento de uma paixão não tão animalesca, ou renunciam à perseguição do amor sem verdade.

Assunto convincente de todas as suas protagonistas, que quase sempre fogem de obsessões ou relacionamentos. A mãe e a filha — sua filha e sua companheira, na morte e na vida.

Um enredo pobre que, até ao final, dá esperança para uma súbita mudança de tom ou cor, mas que em nenhum momento chega a esse momento de tensão trágica que sempre caracterizou os filmes de Almodovar: os corpos trágicos de carne trémula para a perversão dolorosa e de partir o coração, como no penúltimo filme «La piel que habito».

Este novo filme de Almodovar parece estar assente somente na pura beleza e perfeição da fotografia que sempre o caracteriza e, desta vez, sem a música «Volver» que  Penélope Cruz canta com todo o seu esplendor feminino, para nos persuadir e deixar mergulhar na sua arte.

O requinte dos detalhes e definições de uma ostentação falha também — o que não é normal no realizador: os trajes Prada, tão condizentes com a pobreza; o cenário intelectual e perturbador da atenção do espectador; ou, pelo menos, a tentativa frustrada de que o espectador recorde de Almodovar o que pura e simplemente ama nas suas histórias: que ele é capaz de nos enaltecer com um espírito seu muito próprio e nos envolver no fluxo da sua história.

Reconhecer o desempenho cada vez mais extraordinário da actriz Rossy de Palma, que simplesmente quebra a monotonia dos outros personagens e nos dá sorrisos irónicos e conhecidos, quase íntimos, como se se tratasse de um espectador como nós.

A música melancólica do final faz-nos sentir a falta de um Almodovar único e inimitável que não precisa de orçamentos milionários, tal como o que lhe foi oferecido para rodar este filme.

Pergunto-me onde está, nesta sua película, o brilhantismo e plano quase amador de algumas das suas narrativas dos anos 1990, nas quais aproxima o público ao enredo, ao minimalismo e à simplicidade que sempre o caracterizaram. Algumas partes esporádicas de algum — ainda que muito leve — humor negro, pouco nudismo e sexo, mas drama q.b.. Assim é este «Julieta», na minha opinião.

 


Notas:

a: Este artigo foi escrito em conjunto com Enrica Maria Laurá.

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