Por Gustavo Martins-Coelho

Há alturas, em que falta o tempo, para o tanto que temos para dizer… Hoje, por exemplo, tive de fazer a difícil escolha entre concluir o tema da semana passada [1], ou falar dos incêndios — não para me juntar às vozes que dizem que está tudo mal (que não sei se está, ou não; sei apenas que Portugal arde mais do que os outros e que é preciso perceber porquê [2]) — portanto, não para me juntar às vozes pessimistas, mas para enumerar as implicações para a saúde do fumo gerado pelos incêndios e referir alguns cuidados a ter. Já para não falar do tema das medicinas ditas alternativas [3], que ainda falta concluir! Muita coisa para dizer, portanto, mas acabei por optar por terminar o tema da semana passada; entretanto, como parece que, em matéria de incêndios, o pior já passou, deixo esse tema para depois.

Então, repescando o que disse na semana passada, embora ir de férias seja agradável, também tem os seus riscos — nomeadamente acidentes!

Quando falo de acidentes, recordo-me sempre dum professor da Faculdade de Medicina do Porto [4], que nos deu uma aula de Pediatria, dedicada aos acidentes com crianças e nos disse que a maioria dos acidentes não podem ser assim chamados, pois não acontecem acidentalmente; acontecem como consequência de más decisões e más escolhas. Por exemplo, dizia ele, se uma pessoa deixa uma criança brincar com fósforos e ela se queima, isso não é um acidente. Um acidente sucede quando, apesar de tomarmos todas as precauções, algo nocivo acontece, ainda assim.

Na praia, nas piscinas, nas albufeiras, nos rios, nos parques aquáticos, na neve e nos parques temáticos, a maior parte dos «acidentes» acontece devido à má avaliação dos riscos, nomeadamente o estado do mar (em termos de corrente, vento, rebentação), a profundidade dos locais de mergulho, a sobrevalorização das capacidades do nadador, a realização de desportos sem a devida protecção, o consumo excessivo de álcool ou de drogas ilícitas e doenças debilitantes ou que não aconselhem actividades como o banho de mar, a piscina ou mergulhos. Os verdadeiros acidentes, causados por doença súbita, são, na realidade, raros.

Dito isto, então, prevenir os acidentes implica eliminar ou minimizar as causas que acabo de apontar e que podemos controlar:

  • Frequentar praias vigiadass e respeitar os sinais das bandeiras e as instruções dos nadadores-salvadores;

  • Vigiar sempre as crianças;

  • Verificar a profundidade da água, antes de mergulhar;

  • Usar equipamento apropriado para a neve ou os desportos radicais, se for caso disso;

  • Dar a conhecer às pessoas próximas, sempre que for dar um passeio ou fazer uma caminhada e informar-se dos possíveis riscos e dos perigos existentes.

Os afogamentos são uma das principais causas de morte entre crianças e jovens, logo a seguir aos acidentes de viação, pelo que merecem atenção especial. Mais dum terço das mortes por afogamento ocorrem entre Junho e Agosto, praticamente todos os anos. Os afogamentos podem ocorrer no mar, nos rios, nas lagoas, nas albufeiras, nas piscinas e até em tanques de água e poços sem muros de protecção. Além disso, a gravidade dos afogamentos não se restringe aos casos que resultam em morte, uma vez que as pessoas hospitalizadas na sequência de afogamentos têm, muitas vezes, prognóstico reservado. Por cada criança que morre afogada, duas ou três são internadas na sequência de afogamento.

Então, o que fazer para prevenir afogamentos?

  • Cumprir as regras de segurança na praia e nas piscinas, sejam públicas ou privadas, e seguir as indicações dos nadadores-salvadores;

  • De qualquer forma, frequentar praias vigiadas é muito mais seguro, por terem os sinais das bandeiras e as instruções dos nadadores-salvadores;

  • Em piscinas privadas, colocar uma vedação à volta e um trinco de fecho automático, de forma a impedir o acesso das crianças à água;

  • Fazer o mesmo para o acesso aos poços e reservatórios de água;

  • Em espaços desconhecidos, inspeccionar o local e tapar poços, tanques e depósitos de armazenamento de água com redes pesadas e nunca mergulhar, nem deixar as crianças mergulhar;

  • Vigiar atentamente os mais pequenos, sempre que se encontrem perto da água, estar atento às brincadeiras, colocar braçadeiras ou coletes àquelas que não sabem nadar e nunca confiar a segurança duma criança pequena a outra criança mais velha;

  • Não deixar as crianças irem atrás duma bola perdida;

  • Nunca deixar uma criança que ainda não é autónoma sozinha durante o banho, em casa, na praia ou na piscina;

  • Ensinar as crianças a nadar tão cedo quanto possível (as aulas de natação ajudam as crianças a saber nadar, boiar e a identificar situações perigosas);

  • Na prática de desportos aquáticos e de actividades de recreio, usar sempre o colete de salvação e outros dispositivos de segurança;

  • Não entrar de repente na água, após longos períodos de exposição ao sol;

  • Evitar também refeições pesadas e bebidas alcoólicas e esperar três horas após a refeição, antes de entrar na água;

  • Evitar nadar sozinho, não se afastando demasiado e nunca nadar contra a corrente;

  • Se tiver uma cãibra, fora de pé, respirar fundo, colocar-se de costas e boiar até poder nadar para a margem;

  • Ao identificar um caso de afogamento, chamar por socorro e ter sempre próximo os equipamentos de segurança.

Por hoje, ficamos por aqui. Até para a semana!

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