Por João Roncha

O filme «Yentl», escrito por Isaac Bashevis Singer, resume muito daquilo que há de melhor para a minha mente: «Quando a actriz principal é também a produtora e a realizadora, grande é o desafio para a mais que conhecida Barbra Streisand, a qual dispensa apresentações. Devo dizer que Barbra Streisand foi extremamente gentil para com ela mesma; infelizmente para o resultado final, neste filme Barbra está demasiado presente, enquanto o pobre Yentl está ausente.»

Jack Rosenthal, o co-autor desta adaptação da qual  eu sou um grande fã, descreveu-nos pormenorizadamente o seu trabalho no roteiro ao lado de Streisand: — Durante as filmagens, eu mordi o osso da coxa de um pato assado num restaurante chinês e parti o dente molar. Esse episódio foi o menos doloroso das três semanas de rodagem.

Escusado será dizer que, no filme «Yentl», o grande protagonismo vai para Streisand. Para o bem e para o mal. É fácil entender o porquê: Streisand tinha-se apaixonado pela história de Singer e fez de tudo para conseguir produzir e realizar um filme no qual, no ano de 1983, e apesar das preocupações crescentes de que ela já seria demasiado velha para o papel ou muito feminina para nos convencer, representa uma  mulher que adopta o disfarce de homem para se tornar num estudioso. À medida que os anos anteriores e a sua determinação continuaram, ela conseguiu resolver estas questões, em primeiro lugar, optando por fazer um musical do trabalho de Singer, abrindo assim precedentes para que pudesse ser aceite para o papel; em segundo lugar, alterando a idade de Yentl de 16 para 26 (embora ela estivesse na verdade com 40 quando as filmagens começaram); e, por último, fala-se que ela conseguiu enganar na vida real o produtor executivo do filme, Larry Deeway, disfarçada de homem.

Mas os seus esforços não se ficaram por aqui para a construção da personagem. Algumas das intenções foram deixadas de lado e mudaram-lhe um pouco a sua perspectiva e abordagem à personagem que interpreta — e não necessariamente para melhor. A meu ver, por exemplo, o final optimista e esperançoso do filme, onde se vê Yentl a viajar para a América — já como mulher — e onde ela sente que já terá conquistado o seu púlpito, e não mais terá de se esconder ou mentir sobre a sua verdadeira identidade. Vale a pena lembrar que as mulheres dos EUA não conseguiram o direito de voto até 1920 e que ainda seriam precisos alguns ano para que lhes fosse reconhecido o seu lugar na sociedade patriarcal autoritária do tempo. O filme de Streisand não está preocupado com esta ambiguidade quanto ao sexo. Yentl torna-se em Anshel, simplesmente porque não pode estudar a fé judaica na sua terra natal na Polónia, enquanto mulher. O seu desafio, à escala de uma expectativa social, fica aquém do esperado e o filme apresenta somente um argumento feminista — no entanto, agradável e importante o suficiente, o que é claramente necessário neste tipo de filmes —, em vez de uma conversa sobre a natureza do sexo. É preciso explorar as suas consequências e manifestações na sociedade da época.

 

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