Por Alice Santos

Com o início do ano escolar a aproximar-se, lembrei-me de alguns poemas que estudava quando ir à escola era uma obrigação, mas também um prazer.

Dessa época, recordo a «Balada da Neve», de Augusto Gil, «A Nau Catrineta», de autor desconhecido (cantado por Fausto), «No comboio Descendente», de Fernando Pessoa (musicado por Fausto), ou «A Moleirinha», de Guerra Junqueiro, e tantos, tantos outros que eram presença obrigatória nos livros escolares do meu tempo.

Embora os poemas fizessem parte do meu universo enquanto estudante, tive de me socorrer da já famosa Internet para confirmar quem escreveu o quê.

Não me podendo debruçar sobre todos estes autores e seus poemas, vou falar um pouco sobre Afonso Lopes Vieira, poeta português nascido em Leiria, a 26 de Janeiro de 1878, e falecido em Lisboa, no dia 25 de Janeiro de 1946. E porquê este e não outro poeta? Porque escreveu livros para crianças de uma beleza tão singela e encantadora que ainda hoje são de leitura obrigatória.

Filho de D. Mariana de Azevedo Lopes Vieira e do advogado Afonso Xavier Lopes Vieira, formou-se, também ele, em Direito em Coimbra e exerceu advocacia em Lisboa. Foi redactor da Câmara dos Deputados, de 1902 a 1916, altura em que passa a dedicar-se apenas à literatura, influenciado pelas circunstâncias da época, e empenhado em divulgar e valorizar os escritores clássicos portugueses.

Ele próprio escreveu em «Ilhas de Bruma», em 1918:

Meu sangue é português,
minha pele é morena,
minha graça a Saudade,
meus olhos longos de escutar sem fim
o além, em mim…

Chora no ritmo do meu sangue, o Mar

A sua dedicação à escrita levou-o a adaptar algumas peças de Gil Vicente, entre as quais o «Auto da Barca do Inferno» e o «Monólogo do Vaqueiro», promovendo, assim, o teatro vicentino e divulgando obras em versão portuguesa (caso de «O Romance de Amadis» e «A Diana», de Jorge de Montemor) conhecidas apenas em Castelhano.

A sua paixão fez dele autor de livros para crianças e adultos, que foram ilustrados e musicados, dos quais se destacam «Animais Nossos Amigos» (1911), «Bartolomeu Marinheiro» (1912) e «Poesias sobre Cenas Infantis de Schumann» (1915).

Foi também prefaciador e anotador de obras de outros autores bem conhecidos do panorama literário nacional. «Poesias de Francisco Rodrigues Lobo» (1940), «O Livro de Amor de João de Deus» (1921), são apenas algumas das obras nas quais deixou a sua marca.

O escritor gostou sempre de temas nacionais e, por isso, «A Poesia nos Painéis de S. Vicente» (1914) e «O Canto Coral e o Orfeão de Condeixa» (1916) são duas das suas obras bem conhecidas.

A par da escrita — e pela escrita — colaborou em inúmeras publicações periódicas, das quais destaco «Ave Azul» (1899-1900), «A Águia» (1911), «Serões» (1915-1920), «A Republica Portugueza» (1910-1911), «Revista de Contemporânea» (1915-1926), «Ordem Nova» (1926-1927) e «Lusitânia» (1924-1927).

Pelo meio, teve ainda tempo para, de 1938 a 1946, ser Presidente da Assembleia Geral da Casa do Distrito de Leiria.

Diz-se que Afonso Lopes Vieira, apesar de ser cidadão do mundo, «não esqueceu as suas origens, conservando as imagens de uma Leiria de paisagem bucólica e romântica, rodeada de maciços verdejantes plantados de vinhedos e rasgados pelo rio Lis, mas, sobretudo, de São Pedro de Moel, (…) paisagem de eleição do escritor, enquanto inspiração e génese da sua obra. O Mar e o Pinhal são os principais motivos da sua poética.» [1]

Aliás, por tudo isso, a sua casa de S. Pedro de Moel é hoje uma colónia de férias e o liceu de Leiria tem o seu nome.

A sua obra é demasiado vasta, quer no conteúdo, quer na forma, daí mencionar apenas alguns títulos:

  • «Para quê?» (1898)
  • «Naufrago-versos lusitanos» (1899)
  • «Auto da sebenta» (1900)
  • «Elegia da cabra» (1900)
  • «O poeta saudade»(1903)
  • «Poesias escolhidas»(1905)
  • «O pão e as rosas»(1910)
  • «Canções do vento e do sol» (1912)
  • «Canto infantil»(1913)
  • «Cantos portugueses»(1922)
  • «Poema da oratória de Rui Coelho»(1931)
  • «Lírica de Camões»(1932)
  • «Relatório e contas da minha viagem a Angola»(1935)
  • «Éclogas de agora»(livro proibido até 25 de Abril de 1974) (1937)
  • «Ao povo de Lisboa»(1938)
  • «Cartas de Soror Mariana»(tradução) (1942)
  • «Camões»(filme de 1946)
  • «Nova demanda do Graal»(1947)
  • «Branca Flor e Frei Malandro»(1947)

Lembrar-se-ão que referi no início que a poesia dedicada às crianças foi o que me levou a escolher este autor.

Pois bem, na poesia de Afonso Lopes Vieira há poemas dedicados aos animais, ao vento, e muitos outros elementos da natureza. Lembro «O cão que faz ão ão / É bom amigo como os que são / É bom amigo, bom companheiro / É valente, fiel, verdadeiro / E leal serviçal» e o sapo que «É o guarda das flores belas, / da horta mais do pomar; / e enquanto brilham estrelas, / lá anda ele a rondar…» e ainda a «Dança do Vento», pois «O vento é bom bailador, / Baila, baila e assobia. / Baila, baila e rodopia / E tudo baila em redor. / E diz às flores, bailando: / – Bailai comigo, bailai!». Contudo um dos seus poemas emblemáticos, e que me fez recordar e trazer-vos Afonso Lopes Vieira, é aquele com que termino.

Os ninhos

 Os passarinhos
tão engraçados
fazem os ninhos
com mil cuidados

São p´ra os filhinhos
que estão p´ra ter
que os passarinhos
os vão fazer

Nos bicos trazem
coisas pequenas
e os ninhos fazem
de musgo e penas

Depois lá têm
os seus meninos
tão pequeninos
ao pé da mãe .

Nunca se faça
mal a um ninho
à linda graça
de um passarinho !

Que nos lembremos
sempre também
do Pai que temos
da nossa Mãe !

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