Por Gustavo Martins-Coelho

Acabando Agosto, embora ainda haja pessoas a irem de férias em Setembro, a maioria prepara-se para regressar ao trabalho. Por isso, hoje parece-me um bom dia para falar um pouco dos cuidados a ter na viagem de regresso; que também se aplicam na viagem de ida, se pensarmos bem, mas — pronto — à ida estamos todos mais preocupados em apanhar sol e por isso é mais importante abordar os cuidados a ter nesse âmbito — e, como disse na última crónica, o tempo não dá para tudo [1]!

Falemos, então, de segurança rodoviária, no regresso a casa. Muitas das recomendações são gerais e destinam-se à condução diária. Mas algumas coisas são específicas de viagens mais longas. Vejamos, então:

  • Respeite as regras de trânsito e a sinalização. Principalmente, conduza dentro dos limites de velocidade. Eles não são arbitrários; existem por uma razão… Isto nem devia ser preciso dizer, mas, infelizmente, tomamos muitas decisões irracionais, ao volante. Uma viagem da fronteira de Valença à fronteira de Vila Real de Santo António em auto-estrada — que é, se não me falharam os cálculos, a viagem mais longa que se pode fazer em Portugal Continental — faz-nos percorrer 708 quilómetros. Se fizermos uma velocidade média de 120 km/h, demoramos 5h54 minutos. Mas note-se que uma velocidade média de 120 km/h significa conduzir parte do percurso em excesso de velocidade, para compensar as partes do percurso em que, necessariamente, vamos conduzir abaixo (na passagem por portagens, por exemplo) e as paragens que provavelmente faremos, nas áreas de serviço. Portanto, uma velocidade média que não implique exceder o limite de velocidade de 120 km/h estipulado para as auto-estradas em momento algum será, mais realisticamente, de 100 km/h. A essa velocidade, demoramos no mesmo percurso de fronteira a fronteira, 7h05, ou seja, mais 1h11. Andei à procura, na Internet, e encontrei uma revista brasileira [2], que testou o consumo de combustível de quatro carros a três velocidades diferentes: 80, 100 e 120 km/h. Peguei num dos modelos, o Ford Fusion, e nos dados para os 100 e os 120 km/h, para os aplicar à nossa viagem de Valença a Vila Real de Santo António e cheguei à conclusão de que, a uma velocidade média de 120 km/h, consumiríamos cerca de 70 litros de gasolina, enquanto, a 100 km/h, consumiríamos, para a mesma distância, apenas 46 litros. Como o preço da gasolina está no €1,47 [3], a diferença de consumo significa um peso acrescido na carteira, de um pouco mais que €35. Pagar €35 para ganhar um bocadinho mais duma hora de viagem! Tendo em conta que o salário médio dos Portugueses era, em 2014, de €5,17/hora [4], então, para poder pagar essa poupança duma hora de viagem, o português médio teria de trabalhar 6h51! Gasta 6h51 de trabalho, para poupar 1h11 de viagem. Eu, pessoalmente, não acho esta opção racional; o que me diz o leitor?

  • O cinto de segurança também não é obrigatório por acaso: em caso de acidente, sobretudo se for grave, reduz a gravidade das consequências, nomeadamente o risco de morte.

  • De igual forma, as cadeiras para crianças também têm razão de ser: aumentam a sua segurança.

  • O telemóvel também não é proibido à toa: usá-lo desconcentra o condutor, retira os olhos da estrada e aumenta o risco de acidente.

  • Além disso, durma o suficiente, antes de iniciar uma viagem mais longa, e descanse após duas horas a conduzir (e lembre-se de que estas paragens para descansar também contam, no cálculo da velocidade média, que fiz anteriormente, razão pela qual, se ainda não estivesse convencido de que, para fazer uma média de 120 km/h é inevitável cometer uma contraordenação, espero que o esteja agora).

  • Nas localidades (e mesmo fora delas), tenha especial atenção aos peões. Abrande, ao chegar a uma passadeira; lembre-se de que pode haver peões por perto, mesmo que não os tenha visto ao longe; e dê-lhes sempre prioridade. Lembre-se também de que, quando não está ao volante, também é um peão e também não gosta de ver a sua segurança em perigo, por causa de automobilistas pouco cuidadosos.

  • Se tomar medicamentos que podem interferir com a condução, ou substâncias psicotrópicas, não conduza, porque a sua capacidade pode estar diminuída.

  • Nem beba. O consumo de álcool antes de conduzir é uma das principais causas dos acidentes rodoviários. Aliás, à luz do que dizia o meu professor de Pediatria, na faculdade [1], um acidente rodoviário por conduzir embriagado não é um acidente: é a consequência natural duma má escolha. A culpa é sua — e só sua. Ponto final!

  • Finalmente, planifique a viagem e mantenha o carro (ou a mota, já agora) bem conservado, com as revisões e as inspecções em dia, os pneus com a pressão adequada e o pára-brisas limpo. Reduz o consumo e aumenta a segurança.

  • Já que falamos de motas, não se esqueça do capacete!

  • E a recomendação mais importante de todas, em meia dúzia de palavras: seja gentil e cortês, ao volante! Vai ver que a viagem vai correr muito melhor, porque é o comportamento do condutor que mais influencia a forma como a viagem decorre.

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