Por Gustavo Martins-Coelho

Depois de ter andado por aí a dar conselhos a quem ia de férias, vêm aí, finalmente, as minhas! E, como, para chegar ao destino das minhas férias, este ano, terei de andar de avião, achei por bem referir hoje alguns aspectos das viagens aéreas, porque nem só de carros se fazem as deslocações. Aliás, eu sou um enorme fã do transporte colectivo, com uma enorme preferência pelo comboio [1], pelo que não podia deixar de falar disso!

Então, vamos lá ver. Andar de avião, particularmente para destinos longínquos, pode perturbar o equiíbrio e o bem-estar do viajante. Essas perturbações resultam das alterações de altitude, de humidade, de temperatura e de pressão, mas não só: há sempre algum estresse e cansaço, associado a viagens longas, já para não falar no fuso horário.

Começando pela pressão na cabina do avião, embora a mesma seja pressurizada, a pressão no seu interior não é exactamente igual à pressão atmosférica de superfície. Ou seja, quando o avião sobe, a pressão diminui ligeiramente; não tanto como a pressão atmosférica exterior, mas o suficiente para poder não ser bem tolerada por passageiros com alguns tipos de doenças crónicas mais sensíveis à quantidade de oxigénio disponível, tais como as doenças cardíacas, respiratórias, a anemia, ou uma cirurgia recente. Assim sendo, é sempre melhor falar com o médico, antes de se meter num avião, se for um destes doentes. Também associadas às variações de pressão vêm as dores de ouvidos: como o ouvido médio se encontra ligado à nasofaringe pelas trompas de Eustáquio [2], de modo a manter a ventilação e o equilíbrio de pressões do ouvido médio e a drenagem das secreções nele produzidas, quando a pressão cá fora diminui, o ouvido ressente-se. É curioso que ainda esta semana ouvi alguém a queixar-se disso… Para evitar esses sintomas, a solução é relativamente simples: engolir ou mastigar na descolagem e na aterragem e, se a dor nos ouvidos persistir, expirar com força, tapando o nariz e a boca; e não beber bebidas alcoólicas ou gaseificadas antes ou durante o voo.

Passemos à humidade, que também se reduz ligeiramente, durante o voo, originando algum desconforto, que pode ser atenuado: ingerindo líquidos antes e durante o voo; aplicando loção hidratante na pele e gotas nasais de soro fisiológico; e usando óculos em vez de lentes de contacto.

Eu tenho um enorme problema, quando voo: o enjoo. Não há voo em que eu não enjoe, logo na descolagem. Fui muito infeliz, até descobrir que existem comprimidos para o enjoo; deve ter sido a coisa mais importante que aprendi na faculdade! Mas, de facto, a melhor solução é comprar uma caixinha na farmácia e tomar um comprimido, cerca de vinte minutos antes do voo. Para além disso, também ajuda reservar o lugar junto à asa do avião ou à janela e é recomendável ter sempre acessível o saco de enjoo. Por favor, não faça como um passageiro fez ao meu lado, a caminho de Madrid, que sujou o banco todo e queria limpá-lo com a revista que eu ia a ler…

Eu nunca sofri de jet lag, porque a diferença horária máxima que já tive entre a origem e o destino foram duas horas. Mas é verdade que a alteração dos padrões do sono e de outros ritmos biológicos diários como resultado da mudança de fuso horário podem originar desidratação, fadiga, estresse, indigestão, mal-estar geral, insónia e diminuição do desempenho físico e intelectual. O jet lag é inevitável, mas pode ser minimizado, se se descansar bem antes da partida e durante o voo; beber muita água antes e durante o voo; comer refeições ligeiras e evitar o consumo de álcool antes e durante o voo; adaptar ao horário do destino o mais rapidamente possível, começando preferencialmente ainda durante o voo (quando falamos de adaptação ao horário do destino, queremos dizer as horas das refeições e de dormir); e apanhar o máximo de luz solar possível, no destino.

Para terminar, uma curta referência aos problemas circulatórios. A imobilidade prolongada, especialmente na posição sentada, favorece o aparecimento de pernas inchadas, duras e desconfortáveis e a formação de pequenos coágulos nas veias das pernas, a maioria dos quais sem sintomas nem consequências de maior. Mas, pelo sim, pelo não, o ideal é não ficar sentado o voo inteiro, fazer alguns exercícios simples com os braços e as pernas durante o voo e após a aterragem, usar roupas largas e confortáveis e meias elásticas.

Antes de me despedir, lembre-se: se for viajar com recém-nascidos, se estiver grávida de 8 meses ou mais, se sofrer de angina de peito, se tiver tido um enfarte ou uma trombose, ou tiver uma doença respiratória ou infecciosa, se tiver feito mergulho com botija nas últimas 24 horas, ou se for hipertenso, consulte o seu médico, antes de viajar.

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