Por Gustavo Martins-Coelho

Já aqui há uns tempos fiz umas contas à velocidade e à inutilidade de acelerar e cheguei à conclusão de que, na viagem mais longa que se pode fazer em auto-estrada em Portugal, de Valença a Vila Real de Santo António, poupar 1h11 de viagem custa mais €35 em combustível [1]. Como o dinheiro não cresce das árvores, essa poupança de tempo de viagem reflecte-se em gasto de tempo — a ganhar esses €35 que se gastaram a mais. Portanto, do ponto de vista exclusivamente monetário (sem levar em conta, por exemplo, o acréscimo de risco de colisão e morte ou ferimento grave causado pelo excesso de velocidade [2]), apenas faz sentido acelerar para poupar esse tempo de viagem, se se auferir um salário superior a €29,58 por hora; caso contrário, vai-se passar mais tempo a trabalhar, para ganhar o dinheiro extra para o combustível extra, do que aquele que se poupou na viagem, por se andar mais depressa (ou então, se se gostar muito do trabalho que se faz, então talvez compense trabalhar mais tempo do que o que se poupou na viagem).

Mas hoje quero aplicar o mesmo problema às cidades, que é onde fazemos a maior parte das nossas deslocações. Nas cidades (e também nas auto-estradas, mas foquemo-nos nas primeiras), as deslocações são tipicamente mais curtas do que os 708 km de Valença a Vila Real de Santo António. Ainda assim, um dia destes, desafiei uma pessoa, que, por motivos legais, não vou identificar (mas é alguém que eu sei que sempre aceita participar nas loucuras que me lembro de fazer), a fazer uma corrida comigo: demos a volta ao Porto e a única regra era que eu circulava, no máximo, a 50 km/h e o meu compincha (palavra que é um substantivo masculino, mesmo quando se refere a uma mulher, pelo que é inútil tentar tirar conclusões sobre quem será a pessoa em causa) podia cometer uma contraordenação leve, circulando até 20 km/h acima do limite de velocidade estipulado em cada troço de estrada (já percebe agora o leitor por que não vou identificar o meu compincha).

O percurso foi simples: Estrada Nacional 12 (Circunvalação), A43/IC29, Novamente Circunvalação, um pequeno troço da Estrada Nacional 108 até à Rotunda do Freixo e a Marginal (que se chama, sucessivamente, Avenida Paiva Couceiro, Rua da Ribeira Negra, Rua do Infante D. Henrique, Rua Nova da Alfândega, Rua de Monchique, Viaduto do Cais das Pedras, Alameda Basílio Teles, Rua do Ouro, Rua de Sobreiras, Rua do Passeio Alegre, Esplanada do Castelo, Rua da Senhora da Luz — a Rua Coronel Raúl Peres estava fechada para obras —, Avenida do Brasil e Avenida de Montevideu — porquê tanto nome?) até à Praça Gonçalves Zarco e daí fechar o círculo pela Via do Castelo do Queijo, até à Praça Cidade de Salvador (que não se chama Rotunda da Anémona, até porque o monumento que lá está parece tudo menos uma anémona). No total, foram 31,8 km.

Se os fizéssemos a uma velocidade média de 50 km/h, seriam 38 minutos de viagem; se os percorrêssemos, em média, a 70 km/h, demoraríamos 27 minutos. Portanto, na melhor das hipóteses, pouparíamos onze minutos, à custa do aumento da velocidade de 50 para 70 km/h — e aumentaríamos a probabilidade de termos uma colisão (não lhe poderíamos chamar acidente, porque seria antes uma consequência lógica da nossa má escolha) com ferimentos em 80% e com morte em 160%!

Mas, nas cidades, há semáforos, há obras e há trânsito. Daí o convite ao meu compincha: vamos testar o que acontece, em condições reais, quando aumentamos a velocidade máxima, mas somos obrigados a lidar com os obstáculos que se nos colocam ao longo do percurso.

Saímos do mesmo ponto à mesma hora. Perdi o meu compincha de vista logo após o primeiro semáforo, mas voltei a apanhá-lo no seguinte. A partir daí, apanhámos trânsito intenso, mas, mesmo assim, consegui perder o meu compincha de vista, porque houve seis indivíduos que vinham atrás de mim e me ultrapassaram, com a pressa de continuarem retidos na fila, só que atrás do meu compincha, que seguia à minha frente, em vez de mim. E assim seguimos, eu sem fazer ideia donde ele estava, até que fui surpreendido pela sua presença, atrás de mim, na fila para o semáforo do cruzamento do Monte dos Burgos: ele tinha optado pela fila da esquerda e eu pela da direita, e, pelo visto, a minha andou mais depressa do que a dele. Depois dos semáforos, rapidamente fui ultrapassado pelo meu compincha e nunca mais o vi. Apanhei trânsito, semáforos, obras e cheguei à meta, que fora também o ponto de partida, 1h46 depois. A minha média foi, portanto, de — pasme-se — 18 km/h.

Quando cheguei, obviamente, o meu compincha já lá estava: tinha chegado… três minutos antes! Conduzindo agressivamente, excedendo o limite de velocidade nos pontos onde o trânsito lhe permitiu — aumentando, assim, o risco para si e para os demais utilizadores da via (fossem eles automobilistas, motociclistas, ciclistas ou peões) — e consumindo bastante mais combustível, o melhor que conseguiu foi uma velocidade média de 18,5 km/h (mais quinhentos metros por hora do que eu) e menos três minutos de viagem…

Quando cheguei, a primeira coisa que o meu compincha me disse foi:

— Isto não prova nada.

Porém, prova exactamente o que eu queria provar: que acelerar não vale a pena. Não vale a pena, precisamente, porque, no mundo real, não é possível acelerar uniformemente durante todo o percurso, fruto dos obstáculos que se vão colocando (mesmo que tal fosse possível, como vimos nas contas acima, ganhar-se-iam somente onze minutos de viagem). Por conseguinte, nos troços em que é efectivamente possível acelerar, a diferença de velocidade aí adquirida não é suficiente para gerar uma vantagem global, em termos de velocidade média e de poupança de tempo de viagem.

Então, se não se ganha nada em acelerar, mas se perde em segurança e gasto de combustível, por que continuar a fazê-lo?…

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