Por Alice Santos

Este mês, trago-vos Ana Luísa Amaral, nascida em 1956 na capital portuguesa, mas que desde criança reside no concelho de Matosinhos e que diz: — Sempre arranjei tempo para escrever. Sempre. Se não consigo escrever durante o dia, escrevo à noite — às vezes a altas horas, mas sou noctívaga, o que me é muito útil. Acho que uma pessoa quando precisa de escrever, escreve — independentemente de condicionantes exteriores. Claro que ter, como dizia Virginia Woolf, «um quarto que seja seu» é uma ajuda, mas não é fundamental.

A escritora estudou na Faculdade de Letras do Porto, com a qual mantém ligação como membro da direcção do Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa. É detentora de um doutoramento em Literatura Anglo-Americana, sobre a poesia de Emily Dickinson.

As suas áreas de investigação são, essencialmente, Poéticas Comparadas, Estudos Feministas e Poesia Inglesa e Americana e os seus trabalhos encontram-se publicados quer em Portugal, quer no estrangeiro.

É co-autora do «Dicionário de Crítica Feminista» (Porto: Afrontamento, 2005) com Ana Gabriela Macedo. Foi responsável pela edição anotada de «Novas Cartas Portuguesas», de Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa (2010). Coordenou o projecto internacional «Novas Cartas Portuguesas 40 anos depois», que envolveu 10 países e mais de 60 investigadores.

Autora de vasta obra, que vai do teatro à ficção, da literatura infantil às traduções, Ana Luísa Amaral é, sobretudo, conhecida pela sua obra poética, da qual destaco:

  • «Minha senhora de quê» (Fora do Texto, 1990) (reed. Quetzal, 1999);
  • «Às vezes o paraíso» (Quetzal, 1998) (reed. 2000);
  • «Imagens» (Campo das Letras, 2000);
  • «A génese do amor» (Campo das Letras, 2005);
  • «Poesia reunida» (1990-2005) (Quási, 2005);
  • «Entre dois rios e outras noites» (Campo das Letras, 2007);
  • «Inversos, poesia» (1990-2010) (Dom Quixote, 2010);
  • «Vozes» (Dom Quixote, 2011);
  • «Escuro» (Assírio & Alvim, 2014);
  • «Todavia» (Assírio & Alvim, 2015);
  • «Em suma, poesia» (1990-2015) (Assírio & Alvim, 2016).

Os seus livros têm sido publicados em vários países, como: França, Brasil, Suécia, Holanda, Venezuela, Itália, etc.

Foi vencedora de vários prémios, entre os quais o Prémio Literário Casino da Póvoa, o Prémio de Poesia Giuseppe Acerbi, o Grande Prémio de Poesia da APE (Associação Portuguesa de Escritores) e o Prémio Pen Club.

Em 2015, foi agraciada com a Medalha de Mérito da Câmara Municipal de Matosinhos.

A sua poesia é o dizer do profundo em palavras simples que vão muito mais longe do que inicialmente parecem. O quotidiano e, até, banal é transformado em algo maior. Há caos, vazio, transgressão em muitos dos seus poemas, levando o leitor para mundos diversos — o do sujeito poético e o do espaço onde se encontra.

Temos poemas que são autênticas confissões, como se o eu poético fosse descrevendo o que vivenciou e, em simultâneo, ainda estivesse a descobrir algo. É o que podemos deduzir ao analisar o poema «Aniversário». Encontramos a descrição em «Sentei-me com um copo em restos de / champanhe a olhar o nada. / Entre crianças e adultos sérios / Tive trinta em casa.» e a descoberta nos versos «Será comovedor os quatro anos / e a festa colorida / as velas mal sopradas entre um rissol / no chão e os parabéns: / quatro anos de vida

Podemos dizer que a autora tem influências de Emily Dickinson, poetisa que admirava profundamente, pois escreveu no blogue «Poesia & Limitada», no dia 26 de Março de 2010: «A sua linguagem poética, ao mesmo tempo metafórica e elíptica, sincopada e oblíqua, sem muitas vezes concordância de formas verbais, nem respeito por plurais ou regras de gramática, deixou espaço a que dela se acentuasse o excessivo ofício com a gramática ou se falasse até de uma gramática própria. O seu uso recorrente de travessões, que fragmentam e questionam o verso, permitiu que deles se dissesse serem formas de dispersão da unidade discursiva, ou, sexualizados, uma espécie de hímen-hifen. Tudo isto me fascina em Emily Dickinson. E mais ainda: o ter falado de tudo, misturando Deus com ladrões, aranhas com vassouras, alma com vulcões, sonho com abelhas, gerânios, piscos e trevos; ou o ter examinado a morte e a vida, explorado o amor e o inferno, o êxtase, a mais pura alegria, o sofrimento, a misteriosa energia das coisas todas do universo. Ainda o tê-lo feito numa voz de mulher, aparentemente submissa, de facto poderosa.»

São sobejamente conhecidos os poemas «A mais perfeita imagem», «Carta à minha filha», «Um céu e nada mais», «Lugares comuns», «Coisas de luz antigas» e «Metamorfoses» que podem ser encontrados facilmente.

Contudo, para terminar e, talvez, porque «usamos todos a ilusão de fabricar a vida», do seu livro «Se fosse um intervalo» deixo-vos «Constelações».

 Usamos todos a ilusão
de fabricar a vida:
histórias, constelações
de sons e gestos

Usamos todos a suprema glória
do amor: por generosidade
ou fantasia, ou nada, que de nada se fazem
universos

Usamos todos mil chapéus de bicos
mal recortados e de encontro
ao sol:
o nosso mais perfeito em franja e bico
e um arremedo tal e seiscentista
que ofuscando-se: o sol

Usamos todos esta condição
de pó de vento, ou de rio
sem pé: único dom de fabricar o tempo
em raiz de palmeira
ou de cipreste

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