Por Gustavo Martins-Coelho

Dando continuidade ao apontamento iniciado na semana passada [1], relativo aos cem objectos que marcaram a história da Saúde Pública, apresentados no âmbito da comemoração do centenário da Escola Bloomberg de Saúde Pública da Universidade Johns Hopkins [2], hoje vamos falar do avião. O avião está diariamente presente na vida de milhões de pessoas — passageiros que fazem as malas e embarcam, a caminho dos mais diversos destinos; passageiros que podem levar consigo doenças infecciosas. Nem sempre foi assim: durante muito tempo, as pessoas deslocavam-se bastante menos de avião, mas, hodiernamente, a massificação das viagens aéreas globais acelerou a propagação das doenças, implicando atenção redobrada, por parte das autoridades de saúde. A gripe das aves, a doença por vírus ébola [3] e a pneumonia atípica são exemplos de doenças infecciosas que se espalharam pelo mundo através das viagens aéreas. O vírus zica [4] vai pelo mesmo caminho: estima-se que, por causa das viagens de avião, 2,6 mil milhões de pessoas, que habitam em África, na Ásia e no Pacífico, estarão em risco de contrair a doença. Essas regiões possuem o clima adequado à sobrevivência do vírus e o mosquito necessário para a sua propagação, bastando que um indivíduo infectado viaje para lá de avião, a partir da América, onde o vírus existe actualmente, para o introduzir nessas novas comunidades. Por outro lado — e porque nem tudo pode ser mau, na ligação da aviação com a saúde — além de permitirem a propagação rápida de doenças a nível global, os aviões também permitem distribuir rapidamente recursos médicos e humanitários às vítimas de catástrofes, e transportar órgãos para transplante.

Dito isto, retomemos um tema, que deixámos suspenso antes do início do calor e das férias: as medicinas ditas alternativas, ou pré-científicas [5], como eu gosto de lhes chamar. Recapitulando, a ideia-chave que procurei transmitir e que temos de aceitar é a de que «não existem medicinas alternativas. Existe uma medicina demonstrada cientificamente, baseada na prova e suportada por dados sólidos, e uma medicina não demonstrada, para a qual faltam provas científicas. Se uma prática terapêutica é ocidental ou oriental, se é convencional ou inconvencional, se envolve práticas de mente e corpo ou genética molecular, é totalmente irrelevante, excepto para efeitos de estudo histórico ou interesse cultural» [6]. Em tempos, também a medicina ocidental foi «alternativa», no sentido em que carecia de validação científica. Mas, entretanto, a medicina ocidental adoptou o método científico como baluarte da sua validade e utilidade, coisa que as restantes correntes médicas não fizeram; e é somente isso que distingue a medicina ocidental das restantes medicinas (ditas alternativas). Estas medicinas devem ser escrutinadas, à luz do método científico. As que demonstrem a sua utilidade devem ser acrescentadas ao arsenal diagnóstico e terapêutico médico disponibilizado nos hospitais, nos centros de saúde e nos consultórios médicos; as restantes devem ser abandonadas de vez e o charlatanismo severamente punido [7].

Tentei, também, apresentar uma classificação das medicinas pré-científicas [5], de acordo com o Centro norte-americano para a Saúde Complementar e Integrativa [8]. Segundo este Centro, as medicinas pré-científicas dividem-se em dois grupos fundamentais [9]: produtos naturais e práticas de corpo e mente. Os produtos naturais incluem as plantas medicinais, as vitaminas e os minerais, e os pró-bióticos; enquanto as práticas de corpo e mente incluem o yoga, a manipulação quiroprática ou osteopática, a meditação, a massagem terapêutica, a acupunctura, as técnicas de relaxamento, o tai chi, o qi gong, o toque terapêutico, a hipnoterapia e as terapias do movimento. Um terceiro grupo, «Outros», inclui os curandeiros tradicionais, a medicina ayurvédica, a medicina tradicional chinesa, a homeopatia e a naturopatia.

Procurei, também, explicar um conceito importantíssimo na discussão das medicinas pré-científicas: o efeito placebo [10]. Quando uma pessoa faz um determinado tratamento, pode sentir-se melhor, não por acção desse tratamento propriamente dito, mas somente devido à ideia de que, como recebeu um tratamento, logo tem de melhorar. A nossa mente é capaz de «simular» o efeito esperado dum tratamento, de modo que nós melhoramos mesmo, mas não devido a qualquer efeito prático desse tratamento. É este efeito que explica que as medicinas pré-científicas funcionem, nalguns doentes. Mas, se lhes dessem um comprimido com açúcar, ou farinha, este funcionaria igualmente — e não é isso que, como médicos, pretendemos fazer aos nossos doentes…

Finalmente, começámos a estudar a acupunctura mais de perto [11, 12, 13, 14] e retomá-la-emos para a semana, porque o tempo, hoje, já se esgotou.

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