Por João Roncha

Este filme não conta, à partida, com uma observação tão original como quando foi feito pela primeira vez, mas descreve bem a acção do filme. Vemos várias pessoas a correr, preocupadas, em busca da felicidade. Essas pessoas levam vidas invejáveis: têm dinheiro, profissões, cultura. Mas, no final, para esses afortunados — e para todos nós — tudo se reduz à fome de amor. Não é, realmente, pelo sexo nem pelo prazer momentâneo, porque se precisa de confiança. Não pode tudo significar nada, nem nada significar tudo. Quando encontramos alguém, podemos até projectar qualidades maravilhosas no início, até que começamos a conhecer essa pessoa demasiado bem e, inevitavelmente, as coisas mudam.

O tempo é o presente. O enredo do filme gira em torno da cidade de Londres, onde as pessoas parecem viver umas nos bolsos das outras — ainda mais do que nas cidades americanas.

À primeira vista, surge uma simpática senhora idosa chamada Helena (Gemma Jones, a eterna mãe de Bridget Jones [1]), cujo marido, Alfie (Anthony Hopkins, o eterno Hannibal Lecter [2]), a troca por uma mulher muito mais nova, estonteante, loira e com umas pernas ao estilo de Gwyneth Paltrow. Nisto, Helena vê-se obrigada a procurar consolação numa vidente que prevê que ela encontrará um homem muito especial.

A filha de Helena é Sally (Naomi Watts, «King Kong» [3]), casada com Roy (Josh Brolin, «W.» [4]) um escritor, cujo primeiro romance foi um sucesso, mas se encontra, agora, num bloqueio, responsabilizando a mulher por isso.

Sally e Roy lutam para ter uma situação financeira favorável, mas — e enquanto o seu segundo romance não é publicado — acabam por perder o interesse um pelo outro. Sally, vulnerável, sente-se atraída pelo seu chefe, Greg (Antonio Banderas), um patrão magnético, carismático, charmoso e rico — características que seduzem a fútil Sally. Esta minimização da mulher, assim como a adjectivação e relativização ao papel de tontas sonhadoras, já tem vindo a ser apresentada em filmes anteriores de Woody Allen — o qual parece estar, definitivamente, a perder qualidades, longe de filmes como «Manhattan» [5] [6] ou «Histórias de Nova Iorque» [7].

Entretanto, o simpático Roy perde os seus dias olhando para a janela de um apartamento em frente do seu, onde em exibição está a linda Dia — interpretada por Freida Pinto, de «Quem quer ser bilionário» [8], pelo que nos é difícil culpá-lo pela atracção. A maneira como Woody Allen lida com isso é através de uma série de conversas nas quais os paradoxos são ilustrados pela busca da felicidade. Dia é notavelmente simpática com Roy; inclusivamente, chega a apresentá-lo aos pais e cancela o noivado com Tom, seu namorado.

O filme é indulgente. Mas a busca da felicidade está condenada por uma constante definição:  devemos ser felizes com o que temos e não almejar aquilo que poderemos, ou não, vir a ter, porque o preço da busca pode tornar-se muito caro.

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