Por Alice Santos

Influenciada pelas últimas leituras, este mês trago até vós Camões.

Da vida de Luís Vaz de Camões pouco se sabe, pois boa parte das informações sobre a biografia de Camões suscita dúvidas. Porém, isso não impede que seja considerado um dos maiores vultos da literatura, tendo, aliás, sido objecto de inúmeros estudos críticos e traduzido para várias línguas.

Mas, afinal, o que se sabe ou julga saber sobre o nosso maior poeta? Luís Vaz de Camões terá nascido em Lisboa, no ano 1524, e falecido a 10 de Junho — talvez — de 1580, também em Lisboa. Terá nascido numa família da pequena nobreza e sido educado nos moldes clássicos, aprendendo Latim e estudado História e Literatura, em Coimbra. Frequentador da Corte de D. João III, facilmente se envolve com as damas da nobreza e até com plebeias. Esse tipo de vida deu origem a amores frustrados que o levaram ao exílio em África, onde terá perdido um olho. De novo em Portugal, a sua vida turbulenta leva-o à prisão e, mais tarde, após ser perdoado, acaba por partir para o Oriente. Aí terá escrito «Os Lusíadas». Apesar de depois de regressar a Portugal ter publicado a sua epopeia e ter recebido uma pensão pelos serviços prestados à Coroa, tudo indica que terá morrido na pobreza.

Após a sua morte foi publicada a colectânea «Rimas», que reuniu a sua obra lírica.

Na verdade, todos sabem que escreveu «Os Lusíadas» e que os seus versos têm dez sílabas; muitos desconhecem que escreveu peças de teatro cómico e alguns conhecem poemas seus ou, pelo menos, algumas estrofes. Quem nunca leu «Perdigão perdeu a pena / Não há mal que lhe não venha.»?

Foram muitas as vozes que celebrizaram e perpetuaram os seus poemas.

Amália Rodrigues cantou um dos seus belos vilancetes em redondilha maior «Descalça vai para a fonte / Lianor pela verdura; / vai fermosa e não segura.» que Alain Oulman musicou.

Quem nunca ouviu Zeca Afonso cantar o poema «Aquela cativa, / que me tem cativo, / porque nela vivo / já não quer que viva. / Eu nunca vi rosa / em suaves molhos, / que para meus olhos / fosse mais formosa.» que ele mesmo musicou?

Quantos já ouviram João Villaret recitar o soneto «Alma minha gentil, que te partiste / Tão cedo desta vida, descontente, / Repousa lá no Céu eternamente / E viva eu cá na terra sempre triste.»?

Muitos conhecem todos os versos que mencionei, mas, destes, quantos sabem ser Camões o seu autor?

A sua poesia fala de amor. Um amor normalmente espiritual, platónico e idealizado. Esse amor, capaz da mais pura beleza, quase divino, que está na génese da poesia é, em simultâneo, uma fonte de tortura para a alma e corpo do poeta, pois nunca vê satisfeita e correspondida essa paixão. É um bom exemplo desse amor dualista um dos mais belos e conhecidos sonetos de amor. Reza assim: «Amor é um fogo que arde sem se ver, / é ferida que dói, e não se sente; / é um contentamento descontente, / é dor que desatina sem doer.»?

É como se existissem dois tipos de mulher: a angelical, pura e divina, e a outra, erótica e que satisfaz os desejos carnais. Essa outra surge nos Canto IX e X d’«Os Lusíadas». Quando os marinheiros estão na Ilha dos Amores a poesia é bastante ousada, mesmo que através do uso de metáforas, como se pode ler.

Ó que famintos beijos na floresta,
E que mimoso choro que soava!
Que afagos tão suaves, que ira honesta,
Que em risinhos alegres se tornava!
O que mais passam na manhã, e na sesta,
Que Vénus com prazeres inflamava,
Melhor é experimentá-lo que julgá-lo,
Mas julgue-o quem não pode experimentá-lo

Mas nem só do amor ao reino e à mulher fala a poesia de Camões. O seu infortúnio e a sua má sorte estão visíveis em «Erros meus, má fortuna, amor ardente / em minha perdição se conjuraram; / os erros e a fortuna sobejaram, / que para mim bastava o amor somente.»

Por mais que me debruçasse sobre este grande poeta nunca conseguiria escrever tudo o que podia e devia.

Assim, vou apenas falar no pequeno poema que me levou a escolher Camões.

Aí, é a injustiça que está patente, pois o poeta pensa que os bons é que sofrem sempre e que a vida de quem é mau é um mar de rosas, e que, ao tentar ser mau para poder viver num mar de contentamentos, acabou por ser castigado.

Aliás, creio que é um poema que continua actual, dado concluir que o mundo anda desconcertado e que quem é premiado é o mau e não o bom. Fiquem com a esparsa «Ao desconcerto do mundo».

Os bons vi sempre passar
No mundo graves tormentos;
E para mais m’espantar,
Os maus vi sempre nadar
Em mar de contentamentos.
Cuidando alcançar assim
O bem tão mal ordenado,
Fui mau, mas fui castigado:
Assi que só para mim
Anda o mundo concertado.

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