Por Gustavo Martins-Coelho

Na última crónica sobre a acupunctura [1], antes deste interregno de calor, férias [2, 3, 4, 5] e polémicas sobre os impostos [6, 7],  terminei a falar do veneno de abelha no tratamento das dores no ombro [1]. Esta semana, começo por relatar mais uma loucura, que se faz na Coreia, que vem a propósito. Como sabemos, a acupunctura consiste em espetar umas agulhinhas na pele e na musculatura superficial dos doentes e estimulá-las manualmente, ou com recurso a electricidade, laser, etc., não é? Pois bem, na Coreia, faz-se acupunctura com… abelhas vivas! Sim, picam os doentes com estes bichinhos! Escusado será dizer que não há estudos que comprovem a eficácia desse tratamento, mas há bastantes estudos que demonstram que os efeitos secundários do mesmo não são lá muito agradáveis [8]

Mas não há só loucura na acupunctura, bem pelo contrário. Se, até agora, a minha principal mensagem tem sido de precaução, porque a realidade é que não está demonstrada, para lá de qualquer suspeita, a utilidade médica da acupunctura em nenhuma das situações que tenho abordado — dizia eu — se, até agora, a minha principal mensagem tem sido de precaução, hoje, trago boas notícias aos adeptos das medicinas ditas alternativas — neste caso, da acupunctura: um artigo que resumiu os estudos científicos sobre o papel da acupunctura na prevenção da enxaqueca, publicado em Junho deste ano [9], concluiu que os resultados dos estudos existentes sugerem que a adição da acupunctura ao tratamento geralmente aplicado às enxaquecas reduz a sua frequência e que a efectividade da acupunctura é equivalente à dos medicamentos, que se tomam preventivamente [9, 10]. Isto significa que a acupunctura pode ser considerada uma opção no tratamento dos doentes que sofrem de enxaqueca, se estes assim o desejarem. Além disso, a acupunctura é uma intervenção complexa, que pode envolver alterações nos hábitos de vida, que podem ser relevantes para a recuperação do doente [10]. No entanto, chamo a atenção, obviamente, para o facto de que nem todos os tipos de enxaqueca são iguais e que a acupunctura ainda não demonstrou que funciona em todos eles, nem em estudos científicos a longo prazo.

A acupunctura também já foi testada no alívio dos sintomas da insuficência renal crónica. No entanto, ao contrário da enxaqueca, neste caso, os estudos ainda não são conclusivos, embora apontem para algum efeito benéfico a curto prazo da acupressão, como terapia adjuvante da fadiga, da depressão, do prurido e das alterações do sono, nas pessoas que sofrem de insuficiência renal crónica. Ainda assim, é necessário completar o estado actual do conhecimento com mais estudos, antes de nos lançarmos a prescrever acupunctura aos nossos doentes renais.

Antes de fechar a crónica de hoje, falta-me falar no objecto do dia [11]. Para hoje, escolhi o índice de Apgar. Este é, provavelmente, o primeiro exame médico feito ao bebé, logo após o nascimento e mede ou avalia a cor da pele, o pulso (isto é, a frequência cardíaca), os reflexos, o tónus muscular e a respiração, com o objectivo de determinar se é necessário prestar cuidados médicos imediatos ao recém-nascido.

Este índice foi desenvolvido em 1952 por uma anestesiologista, Virgínia de seu nome e Apgar de apelido — daí chamar-se índice de Apgar. Este índice surgiu antes de haver monitores do estado de saúde do feto durante o parto e veio permitir que muitos bebés deixassem de sofrer, ou mesmo de morrer, logo após o parto, por a equipa médica não se aperceber de que necessitavam de apoio imediato. O índice de Apgar, portanto, é responsável por uma diminuição considerável da mortalidade neonatal e dos atrasos de desenvolvimento dos bebés; e mantém-se em uso, actualmente. Quanto à Virgínia Apgar, veio a fazer o mestrado em Saúde Pública, em 1959.

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