Por Gustavo Martins-Coelho

Já falei duas vezes da acupunctura ligada aos acidentes vasculares cerebrais, em ambas para dizer que não há provas científicas de que a acupunctura alivie qualquer tipo de dor causada pelo AVC [1, 2].

No entanto, há outras lesões, ou sequelas, talvez até mais relevantes do que a dor, que resultam dum AVC. É na reabilitação dessas sequelas que começo por me focar hoje, para dizer que, a partir dos dados actualmente existentes, se pode admitir a possibilidade de que a acupunctura tenha efeitos benéficos na redução da dependência de terceiros e nalgumas limitações neurológicas específicas, nas pessoas em convalescença dum AVC [3], melhorando a qualidade de vida, a mobilidade e a capacidade de realizar as actividades do quotidiano [4]. Contudo, não foi ainda possível demonstrar que esse efeito não é simplesmente devido ao efeito placebo [5], de modo que não é possível retirar uma conclusão definitiva, sendo necessários mais estudos, de preferência bem desenhados [3]. Além disso, falta informação sobre o potencial risco da prática de acupunctura em doentes com sequelas de AVC [6]; e falta também estudar qual a modalidade de acupunctura mais indicada e qual a duração do tratamento mais adequada [7]. Provavelmente, mais cedo ou mais tarde, como, hoje em dia, tudo é redutível a dinheiro, vamos também começar a fazer uma análise económica da acupunctura [8].

Aliás, no caso da dor lombar crónica, essa análise foi feita pela Deloitte, na Austrália, e chegou à conclusão de que, nesse país, a acupunctura, em conjunção com o tratamento convencional (mas não isoladamente) tem uma relação custo-benefício positiva [9]. O problema… o problema é que, na verdade, a qualidade dos estudos científicos em que se baseia esse cálculo, ou seja, a forma como as experiências respeitam as exigências do método científico [10, 11], é muito baixa, pelo que, embora possamos afirmar, com base científica, que a acupunctura pode ter um efeito favorável na dor lombar de causa não específica sentida pelo doente e nas limitações funcionais que daí advêm, essa afirmação tem um valor, na prática, muito reduzido [12]. Aliás, a própria interpretação dos dados é complicada: há dados que apontam no sentido de que a acupunctura tem algum efeito, mas, quando se compara esse efeito com outros tipos de tratamento, as conclusões dos diversos estudos são, muitas vezes, opostas [13]. Na dor aguda, a confusão é a mesma: aparentemente, a acupunctura reduz as limitações funcionais de quem tem dor lombar aguda, melhor do que os anti-inflamatórios, mas não do que o placebo [5]; e reduz a dor lombar propriamente dita melhor do que o placebo, mas não melhor do que os anti-inflamatórios [13]. Uma confusão, como se vê — que só pode querer dizer uma coisa: é preciso estudar melhor o assunto.

Outra área em que a acupunctura foi estudada foi os vómitos na gravidez. O que se pode dizer sobre isso, resumidamente, é que não serve para nada [14].

Para acabar, como já vem sendo hábito, é tempo de falar dum objecto, que é relevante para a saúde pública [15]; e, hoje, esse objecto será o capacete da bicicleta.

A bicicleta foi popularizada na década de sessenta do século XIX, mas o capacete respectivo só foi inventado em 1975, pela Bell Auto Parts, uma empresa dos Estados Unidos da América. Inicialmente, o capacete era uma simples cobertura de couro para a cabeça, que apenas protegia de arranhões e nódoas negras. Com a passagem do tempo, foi sendo alterado, no sentido de proteger contra impactos mais fortes.

Estima-se que o uso do capacete, enquanto se guia uma bicicleta, reduz a probabilidade duma lesão grave da cabeça em cerca de 50 %. Infelizmente, poucos ciclistas os usam, sobretudo porque os consideram pouco práticos.

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