Por Gustavo Martins-Coelho

Eu sou um fervoroso adepto do transporte colectivo. Provavelmente, o facto de haver uma coluna [1] neste blogue [2], de que sou editor-chefe [3], dedicada ao tema e escrita por um perito [4], bem como algumas coisas que escrevi anteriormente sobre o assunto [5], já devem ter feito o leitor desconfiar.

Contudo, conforme o leitor também já terá notado [6], nem tudo vai bem, no reino da Dinamarca.

Esta é a história da minha conversão; e é uma história simples.

Tenho ido frequentemente a Lisboa. Do Porto à capital, são 307 km pela auto-estrada. Dado o consumo do meu carro, gasto 15,96 l de combustível. Ao preço que está o gasóleo, são €20,58 para lá chegar. Em portagens, são mais €21,60. No total, a viagem fica por €42,18. O bilhete de comboio custa €30,30, se for no alfa pendular, ou €24,30, se for no intercidades (sempre em segunda classe). Compensaria ir de comboio, se não fosse, habitualmente, acompanhado. Para duas pessoas, o carro fica por €21,09 por pessoa, abaixo do preço da classe mais barata do comboio intercidades. Simples: vou de carro.

No dia-a-dia, é ainda mais flagrante: de casa ao trabalho, são 6,4 km; para voltar, 7,3 km. Tudo somado, ir e vir fica por €20,20 por mês, em média. O passe que me permite fazer o percurso equivalente custa €47,10. Por esse preço, posso ir e vir do trabalho todos os dias e ainda fazer um pouco mais de quatrocentos quilómetros para onde me apetecer. Posso, por exemplo, ir a Lisboa!

Além do mais, segundo o Waze [7], gasto 21 minutos em viagem (ida e volta), se for de carro, mas, segundo o Moovit [8], se optar pelo transporte colectivo, ir e vir demora 1h21.

Deixa cá ver: demorar 21 minutos por dia e gastar €20,20 por mês, ou demorar 1h21 e gastar €47,10 por mês? É uma decisão fácil, parece-me: vou de carro.

Mesmo que considere os custos de manutenção do carro e os impostos que a sua posse implica (e tendo em conta que disponho de estacionamento gratuito), o valor mensal é ainda inferior (€42,20) ao do passe.

Mas é ridículo que o carro seja mais barato do que o transporte colectivo. O segundo não deveria ser um luxo.

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