Por Luísa Vaz

É sobre o tema «A História chegou ao fim?» que com muito empenho e orgulho inicio esta minha participação na Ágora Lusitana.

Ao analisar esta temática vejo que poderia começar por um relato histórico sobre as sociedades ancestrais, começando pelos Maias e os Incas, pela forma como, sem terem ainda sido criadas estruturas de Governo, eles não só dominavam a estrutura social, como o comércio, a astronomia ou várias áreas do conhecimento, poderia reportar-me aos ancestrais povos aborígenes que sem tanto conhecimento científico também detêm um vastíssimo, muito bem implementado e funcional sistema de estrutura social ou até às comunidades indígenas que se regem pelos mesmos padrões, ou pelo menos aquelas que escaparam à ganância do «homem civilizado» que por pouco não as dizimou na totalidade.

É estranho no entanto que automaticamente se ligue a Política à História como se só existisse a História Política e daí logo se faça a ponte para as situações políticas do mundo em que estamos inseridos. Mas esta colagem é natural. As pessoas a bem ou a mal percebem que a Política se passou a «sentar à mesa com elas», está presente em todos os nossos passos e define todas as nossas atitudes pois impõe pesadas consequências às nossas escolhas.

Poderíamos falar de História social, económica, ambiental, enfim, há uma parafernália de vertentes da História que poderíamos analisar mas o tema conduz-nos para a análise civilizacional e social via Política e esta será a minha abordagem também.

Portugal tem muitos séculos de História, passou por vários momentos sociais de mudanças e convulsões e tem uma muito jovem Democracia que celebrou este ano 42 modestos aninhos. Cada mudança de regime desde a Monarquia trouxe consigo os vícios do despesismo do Estado e tem caminhado a passos largos para a desestruturação social.

Muitos se queixam do período da Ditadura, não deve de facto ser fácil viver privado de liberdade e numa sociedade limitada e cheia de regras. Mas numa sociedade em que o normal era as pessoas terem a 4.ª classe, uma 4.ª classe bem feita e que ensinava os alunos e os preparava para o desempenho das funções «correntes» e em que as Famílias passavam os valores da Honra, da Seriedade, do Compromisso, da Lealdade, do Trabalho, da Honestidade e outros, fechada ao exterior mas com profissionais competentes, com políticos responsáveis e com as contas pagas e os cofres cheios, o mau mesmo era o sonho de um Portugal Colonial e a falta de Liberdade que grassava. Hoje temos Liberdade ao ponto de sermos Libertinos na forma como expressamos os nossos pensamentos e opiniões, hoje temos Universidades em cada «canto e esquina» e tratamos os políticos por «tu» mas temos uma divida pública gigantesca, vamos a caminho da 4.ª bancarrota, numa repetição dantesca do cenário de 1979/83, temos uma classe média destruída — lembremo-nos que só as sociedades africanas ou as comunistas e socialistas não têm uma classe média forte — e no casos dessas duas últimas por uma razão de força, somos todos iguais na pobreza, excepto os ricos que estão colados ao Poder porque interessa manter as elites até porque alguém tem que sustentar o dito Poder e é preciso formar sucessores. Em todos os regimes é preciso uma elite que se ostenta para mostrar às «pessoas reais» que podem sonhar enquanto são subjugadas.

Portugal está num momento difícil da sua História social, civilizacional, económica e política. Mas o mais grave é não perceber que uns problemas decorrem de outros e que é um círculo vicioso que é urgente quebrar.

Ao olharmos para o Mundo, vemos uma América com clivagens gravíssimas, muitas que dificilmente poderão ser ultrapassadas e vemos que de tudo o que uma super-potência mundial produziu, Donald Trump e Hillary Clinton são os melhores para se candidatarem à Presidência…Estranho diria eu…Olhamos para o Brasil e vemos um cenário ainda pior. Dilma é destituída para ser substituída por alguém mais lobista que ela e que começa logo por mudar a Lei para que ele próprio não passe pelo mesmo processo. Antes de Dilma, todos sabemos que lá esteve Lula, um claro exemplo de mau político mas que ganha as eleições com base no facto de ter sido mineiro. Dilma foi guerrilheira e Temer é esperto. Ou seja, o que se conclui é que a maioria do povo ou não tem formação política ou quer ver um «seu semelhante» no Poder de forma a ver-se representado o que não seria mau de todo mas é utópico e como tal, perigoso.

Estamos perante portanto uma crise civilizacional e social que leva à crise política e económica, senão vejamos: os políticos do Mundo inteiro não vêm de Marte, são fruto das nossas famílias, das nossas Escolas, das nossas Universidades. Ora se assim é e eles atingem o Poder sem quaisquer escrúpulos ou sequer sentido de responsabilidade — já para não falar no Sentido de Estado e de Entrega à Coisa Pública — então o problema maior está na falta de Valores e Princípios que grassa nas sociedades actuais.

Há quem embandeire em arco para afirmar que a culpa é do malvado Capitalismo, ou dos Bancos ou também dos Mercados. Sujeitos sem rosto e sem morada. É a mesma falacia que dizer que “a culpa é dos políticos” como se eles não estivessem em S. Bento e não fosse fácil ir lá falar com eles. Não, lamento mas a culpa é da falta de integridade do Ser Humano, da forma despudorada como ele se aproveita das fragilidades alheias e das falhas que os sistemas apresentam. Poderíamos debater se as falhas são ou não propositadas mas não me parece necessário.

Por cá entretanto, vivemos uma situação que tem tanto de surreal, como de caricata como também de perigosa. O que me consola é que já quase temos o fim à vista. Se não vejamos e enquadremos: em Outubro houve eleições legislativas das quais a única Coligação presente a sufrágio saiu vencedora. Não conseguindo ainda assim maioria parlamentar, num golpe de sorte, o segundo Partido mais votado consegue anular a sua Carta de Princípios e coligar-se com todos os Partidos à esquerda do Hemiciclo. O Bloco nunca tinha sido Governo e pelo que se vê, dispensava bem essa responsabilidade — note-se que não tem nenhuma pasta nem nenhum Secretário de Estado mas tem assento nas reuniões, participa das decisões e apresenta medidas publicamente e como tal, é legítimo dizer que faz parte deste Governo — o PCP desde 25 de Novembro de 1975 que lá não se sentava e os Verdes e o PAN não faziam ideia do que isso fosse nem nunca sonharam sequer com semelhante. Estavam portanto reunidas as condições para o descalabro a que agora assistimos mas também para que esses Partidos pequenos tivessem finalmente oportunidade de fazer diferente, de fazer mais, de fazer melhor. O resultado está à vista: o PS é um Partido de base capitalista e europeísta, foi aliás um dos seus fundadores quem assinou a entrada de Portugal na CEE e tem que chegar a acordo com um Partido como o Bloco de Esquerda que se baseia numa Carta de Intenções cheia de frases avulsas, sem uma visão global do País e da Economia e por conseguinte nem da sociedade por não ter noção do impacto e do estrago que faz aquilo que defende e sendo que é clara e assumidamente anti-capitalista e com o Partido Comunista, esse sim, ao menos tem o Plano Quinquenal de Marx, em que se baseia, para apresentar algumas propostas que evidentemente não funcionam numa sociedade livre de mercado aberto e concorrencial.

Ora este chorrilho, esta cacofonia de disparates só leva mais um aumento do fosso. Na sua reentrée, o Bloco assume querer criar um imposto para taxar os ricos sendo que «taxar a acumulação de riqueza não significa taxar a poupança.» E eu pergunto: Exceptuando quem vive das mais variadas formas de saque, como é que é possível acumular riqueza se não se fizerem poupanças? Até quando vamos aguentar este circo de que uma Economia que vive da cobrança de impostos e não de medidas que estimulem a Economia, de investimento directo estrangeiro e de outras fontes saudáveis de fomento do desenvolvimento económico que gera receita e emprego? Até quando vamos nós tolerar que a Economia esteja baseada em impostos para repor benefícios que foram cortados? Até quando vamos tolerar viver num País sem uma estratégia a médio prazo, pelo menos? Até quando vamos tolerar que crianças imberbes sem qualquer experiência profissional de relevo sejam responsáveis por algo tão importante quanto a condução dos destinos da Nação?

E depois há a Europa,.a velha e desgastada senhora… A senhora que bem arranjada à luz dos antigos ditames se mostra perante o Mundo como a pacificadora, a que une, a que congrega mas a que está desfasada. A Senhora Dona Europa tem que perceber que ou lê os Tratados até ao fim e implementa as medidas todas cada vez que quiser aplicar uma Política ou vai acabar por se desagregar. A Senhora Dona Europa tem que perceber que não pode fazer as coisas pela metade e exigi-las por inteiro, tem que se capacitar que enquanto não definir um rumo e um modelo vai continuar a não obter resultados e com isso sofremos todos.

Tudo isto contribui para o actual estado das coisas. Tudo isto contribui para a convulsão social, a má distribuição da riqueza e para outros problemas. Devem ser os ricos a pagar as crises porque têm mais? Não, quem as deve pagar deve ser quem as criou, quem com elas beneficiou e se com isso ficou rico, pois que devolva e volte ao seu patamar. Isso sim é equidade, isso sim, é Justiça.

Se depois disto eu acho que a História chegou ao fim? Na perspectiva da Humanidade, enquanto houver Seres Humanos a História vai continuar porque quem cá ficar e quem a seguir vier vai continuar a escrevê-la seja em papiro seja em aplicações de telemóvel. Se me perguntam se esta História chegou ao fim? Eu espero que sim porque já chega de Robin dos Bosques e Xerife de Nottingham, já chega de vivermos no Mundo dos Sonhos em que somos todos iguais em patamar de riqueza, ou pobreza se olharmos pela perspectiva da Esquerda e já chega de não termos políticos de qualidade e politicas que procurem o desenvolvimento do País em todas as suas vertentes.

Uma sugestão, profissionalize-se a classe, sem sindicatos, obrigue-se à exclusividade e aí talvez possamos almejar a ter alguma qualidade e competência no exercício dos cargos mas acima de tudo, aprendamos de uma vez que um político só é digno se o for no desempenho do cargo e nunca por nunca ser deve estar acima de qualquer Lei, nem do Homem, nem Divina.

Deixo-vos este pensamento que me parece se adequa à situação:

Quando metade da população descobre de que não precisa de trabalhar, pois a outra metade da população irá sustentá-la, e quando esta outra metade entende que não vale mais a pena trabalhar para sustentar a primeira metade, então chegamos ao começo do fim de uma nação. É impossível multiplicar riqueza dividindo-a.

Adrian Rogers (1931–2005) [N.d.E.: sobre a origem desta citação, vide [1]).

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