Por Alice Santos

Rosa Alice Branco, nasceu em 1950, na cidade de Aveiro. A Filosofia está na base da sua formação académica, tendo finalizado a licenciatura na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, no ano lectivo de 1977/1978. Mais tarde, concluiu o mestrado e ainda o doutoramento, também na área da Filosofia. Frequentou o curso de Línguas e literaturas modernas.

Tem uma vasta experiência na docência, onde se iniciou com a cadeira de Psicologia da percepção, na Escola Superior de Artes e Design (ESAD), no ano lectivo de 1989/1990. Foi convidada para leccionar na École d’Arts et Métiers de Kairouan, na Tunísia, no ano de 2002/2003.

A sua obra publicada não se limita à poesia. Rosa Alice Branco tem escrito livros, inúmeros artigos, prefácios, textos para catálogos de exposições, etc. São exemplo disso: «O que falta ao mundo para ser quadro» (Limiar, Porto, 1993), «Entrevista a René Thom» (Jornal de Letras, 26/10/87), «Egito Gonçalves: um rosto entre a vida e a poesia» (J.L., 21 de Fevereiro de 2001) e «Traduire d’ue langue inconnue» (in Baratti, «Une échange de Commentaires sur la traduction de la poésie», Albiana, Córsega, 2003), o prefácio de «O rigor do aleatório» (in Marcin Sendecki, Parcelas, Quetzal) e «O percurso como horizonte do possível na obra de Manuel Amado» (texto de apresentação do catálogo da exposição realizada em Lisboa, Outubro de 2002).

A autora tem, ainda, procedido à organização de publicações e eventos ligados à poesia: «Encontros de Talábriga» — Festival internacional de poesia de Aveiro, «Em voz alta» — Encontro internacional de poesia e performance (Campo das Letras, Porto, 2001), «Declaração universal dos direitos linguísticos» (versão portuguesa) (Campo das Letras, Porto, 2001), etc.

Alguns dos seus livros foram traduzidos. Para árabe, por Moncef Louhaïbi, «Do verde até à árvore» (ed. Tombuctu, Tunis, 2002) e «A palmeira de Kairouan» (ed. Gémeos R., Porto, 2003). Em francês, temos «O beijo do infinito» (tradução de Catherine Dumas, Genéve, 2002). Em espanhol, o «Horizonte colado à pele» (tradução de Xosé Maria Alvarez Cáccamo, Espiral Maior, Corunha, 2002).

«Soletrar o dia», «O mundo não acaba no frio dos teus ossos» (ambos da Quasi Edições), «Animal volátil», em parceria com Casimiro de Brito (Edições Afrontamento), e «Da alma e dos espíritos animais», são alguns dos títulos onde podemos ler a poesia desta autora aveirense.

Sobre esta poesia nada direi. Deixo-vos, não um, mas vários poemas que fazem antever o quão bela e diversa é a sua escrita.

Comecemos por questionar a «Arte poética»

Gostaria de começar com uma pergunta
ou então com o simples facto
das rosas que daqui se vêem
entrarem no poema.
O que é então o poema?
um tecido de orifícios por onde entra o corpo
sentado à mesa e o modo
como as rosas me espreitam da janela?
Lá fora um jardineiro trabalha,
uma criança corre, uma gota de orvalho
acaba de evaporar-se e a humidade do ar
não entra no poema.
Amanhã estará murcha aquela rosa:
poderá escolher o epitáfio, a mão que a sepulte
e depois entrar num canteiro do poema,
enquanto um botão abre em verso livre
lá fora onde pulsa o rumor do dia.
O que são as rosas dentro e fora
do poema? Onde estou eu no verso em que
a criança se atirou ao chão cansada de correr?
E são horas do almoço do jardineiro!
Como se fosse indiferente a gota de orvalho
ter ou não entrado no poema!

Contudo, apesar de ser «Hora de ponta» não nos aborrecemos…

Apanhar um lugar a esta hora é uma sorte, poder olhar
pela janela e fingir que tenho imunidade diplomática,
que estou de lá do vidro com o hálito das folhas, o sabor
a hortelã e um ar fresco interrompido pela velha senhora
a quem cedo o assento e um sorriso enquanto me agradece
de nada, de ir agora em pé empurrada, de cá do vidro
a apanhar uma overdose de realidade com o bafo quente
do homem gordo na minha orelha, com a mão livre
apertada contra o peito, contra o visco da hora apinhada
na minha pele pública, na minha pele de todos.
No banco em frente uma mulher afaga a neta com o sorriso
doce e cansado, os olhos brilhantes, a candura intacta
toma-me toda como se eu fosse um anjo
descendo à terra com um corpo real para que a minha pele
receba a dádiva da tua, aceite os cheiros de um dia de trabalho,
o calor excessivo, a proximidade insustentável e leia no teu rosto
cada mandamento nos solavancos que nos atiram uns para
os outros. No teu rosto à hora de ponta aprendo a compaixão
até sair na próxima paragem com um suspiro de alívio.

… e vamos lendo um «Manual de jardinagem»…

É preciso mudar a terra do poema,
talvez arranjar um vaso maior
e deitar estrume em cada vaso.
Ainda ontem removi a terra
e vi no peso das palavras como escondem
o segredo da leveza.
É melhor esperarmos pela primavera
por todos os meses que faltam
para hoje. Até lá
regarei o vaso como de costume.
Tenho exactamente o tempo de uma pausa
atravessa o poema com o teu passo ágil
e senta-te comigo.
Que palavras nos fizeram falar? O que buscamos
no silêncio? Qual a melhor hora
para regar a água?
Caminhemos um pouco. No fundo do vaso
a razão declina no corpo do poema.
Havemos de a retirar com a pá que floresce na primavera
depois atravessamos verso a verso
à superfície
sem vaso que contenha a humildade da terra.

… e sonhando embalados pelo som da sua «Serenata à chuva»

Chuva, manhã cinza, guarda-chuva.
Entrar no contexto, dois pontos. Ele e ela
abraçados caminham sob o tecto
do guarda-chuva que os guarda.
Pelas ruas vão com a vontade de voltar
ao branco dos lençóis. Esse objecto prosaico
que às vezes se vira com o vento
torna-se objecto de poema. Dizer também
como a chuva é doce neste dia de Verão.
Como o amor altera o sentido da chuva,
sim, como ela se eleva no ar e as frases se colam
ao vestido. No interior da pele o poema mudou
desde que entraste no guarda-chuva esquecido
a um canto do armário. Talvez o amor seja tudo amar
sem excepção. Eu que nunca uso guarda-chuva
assino incondicionalmente este poema.

… e, antes da derradeira paragem, porque não um pouco de «Ilusionismo»?!…

Não sei o que te diga. E se soubesse
a quem o diria? Já não sei inventar os domingos.
Pode-se inventar tudo menos os domingos.
Começo a vestir-me para o outono, começo
por este dia que só de dizê-lo é inverno.
Ponho uma camisola clara para afugentar a noite.
E todas as horas. As que ficam no fundo
e arrasam a gaveta. O peso incontável
de terem partido os dias da semana
iguais entre si, iguais a ti e a mim.
Fiou um segundo esquecido na gaveta.
É com ele que farei o dia e todos os dias
que faltam para que não me faltes.

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