Por Gustavo Martins-Coelho

No tratamento da obesidade, a principal estratégia é fazer equivaler as calorias que entram, por via alimentar, às calorias que saem, por via das actividades do quotidiano e do exercício físico. Mas, como isso é mais fácil dito do que feito, a gente vai fazendo uma batota e faz cirurgias, toma medicamentos — e tenta acupunctura. Ora, neste domínio, existem estudos que apontam no sentido de que a acupunctura funcione tão bem como os medicamentos disponíveis no mercado, melhor do que a simples alteração do estilo de vida [1] e melhor ainda, se combinada com esta [2]. Contudo, trata-se de estudos com amostras pequenas e de reduzida qualidade científica, pelo que têm de ser validados por estudos de grande dimensão e bem estruturados, segundo o método científico [1, 2, 3].

Há muitos tipos de dor e já aqui [4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11] falei dalguns. Hoje, quero acrescentar a dor devida às doenças reumáticas, a respeito da qual os estudos, além de não serem cientificamente adequados, até agora só mostraram que a acupunctura tem o mesmo efeito que um placebo [12], e a dor muscular crónica, para a qual a acupunctura aplicada directamente sobre os pontos dolorosos [13] pode ter benefícios na sua redução a longo prazo, mas não no alívio a curto prazo [14].

O primeiro objecto do dia [15] de que falei neste «Consultório…» [16], desde que a Escola Bloomberg de Saúde Pública da Universidade Johns Hopkins lançou a sua lista de cem objectos que marcaram a história da Saúde Pública, foi a lata de aerossol e os clorofluorcarbonetos que esse invento lançou para a atmosfera e acabaram a destruir a camada de ozono, que nos protege dos raios ultravioleta. Mas os CFC não foram a única invenção humana que demonstrou, pelas consequências que trouxe à nossa saúde, ser uma má ideia. Uma outra invenção que também não foi muito bem pensada foi a gasolina com chumbo, que é o objecto do dia de hoje.

Curiosamente, um dos primeiros clorofluorcarbonetos com aplicação comercial, o Freon, foi desenvolvido por uma equipa de cientistas que integrava o inventor da gasolina com chumbo. Esse senhor, chamado Charles Kettering [17], parece que tinha dedo para inventar coisas extremamente úteis — e extremamente prejudiciais!

Mas vamos à história da gasolina com chumbo. O chumbo foi adicionado à gasolina nos anos vinte do século passado, porque prevenia a explosão precoce da mistura nos motores dos automóveis, tornando a viagem mais tranquila, poupando danos nas bielas e permitindo o desenvolvimento de motores mais potentes. Infelizmente, a adição de chumbo à gasolina teve um preço: níveis elevados de chumbo nos nossos organismos e no ambiente, incluindo o ar e os oceanos. As crianças mais pequenas são particularmente sensíveis ao envenenamento pelo chumbo, o qual pode afectar gravemente o seu desenvolvimento mental e físico.

Diga-se de passagem que, desde o início, os especialistas em saúde pública se manifestaram contra a adição de chumbo à gasolina, tendo-o qualificado de «veneno assustador e malicioso». Mas a indústria petrolífera, usando os seus próprios cientistas e tendo apenas em vista o lucro, resistia e insistia que não havia alternativa (onde é que já ouvimos isto?). Só em 1965 é que o geoquímico Clair Patterson demonstrou a quantidade de chumbo que se estava a acumular no ambiente e identificou o culpado no chumbo adicionado à gasolina e emitido pelos tubos de escape dos carros, na forma de micropartículas de chumbo.

A investigação posterior, juntamente com este trabalho pioneiro do Clair Patterson, conduziu à decisão do governo dos Estados Unidos, em 1976, de obrigar ao uso de gasolina sem chumbo. Dez anos depois, já não havia gasolina com chumbo em todos os Estados Unidos e, dez anos depois disso, o nível de chumbo no sangue dos norte-americanos tinha baixado 80 %.

Em Portugal, a gasolina com chumbo deixou de ser vendida em 2002 e o gasóleo em 2001.

Anúncios