Por Sara Teotónio Dinis

É importante, e pode ser uma mais valia, parar para repensar e reavaliar o rumo, as necessidades da população que servimos, e as atitudes que estamos a tomar.

Em sede de jornadas de trabalho, reuniões multidisciplinares, ou mesmo discussões interpares, há uma tendência crescente para discutir números inteiros, razões, percentagens e índices – os indicadores. São medidas importantes para avaliar a abrangência, eficácia e eficiência da nossa acção profissional, mas não é por elas que a nossa actividade se desenvolve – é pelos doentes.

Esta reflexão veio na sequência do estudo do Bilhete de Identidade dos Indicadores que, no global, e na minha muito modesta opinião, não reflecte os verdadeiros ganhos em saúde, tão sobejamente discutidos e explanados no Plano Nacional de Saúde.

No seio do corrupio assistencial e dos objectivos que lhe são inerentes, equilibrar ambas as vertentes dos cuidados de saúde – a assistência e a prevenção – é uma habilidade que pode e deve ser aprimorada, pelos mais variados motivos.

Desde logo pelas vantagens óbvias que advêm da promoção da saúde dos cidadãos portugueses e da prevenção da doença dos mesmos nas várias fases do seu ciclo de vida. Quem tem saúde tem o resto – energia, oportunidades, trabalho, felicidade – crescimento pessoal e colectivo, intelectual e económico.

Por outro lado, a prevenção será também, a médio e longo prazo, uma atitude incontornável para a garantia da sustentabilidade futura do Serviço Nacional de Saúde, dado o envelhecimento da população portuguesa e o aumento do impacto das doenças crónicas.

Nos Cuidados de Saúde Primários, a Prevenção Primária deve ser uma prioridade, e nela deve ser investido tempo e recursos, sem prejuízo das demais atitudes terapêuticas e de vigilância já em vigor no contexto referido.

Desta forma não se compreende que não haja pressão dos decisores políticos para que haja obrigatoriedade em criar espaços próprios de consulta e de educação para a saúde tendo em conta a redução da incidência e prevalência da obesidade e excesso de peso, precursores das doenças crónicas não transmissíveis que mais matam e diminuem em Portugal.

Não se compreende que na leitura do rol de indicadores a única importância dada ao Índice de Massa Corporal (IMC) seja a obrigatoriedade da sua determinação e o seu registo em local próprio, dentro de um determinado período temporal. Porque não premiar as unidades de saúde que demonstrem ser capazes de desenvolver programas dirigidos à prevenção e combate à obesidade, objectivando proporções de utentes inscritos com IMC normal?

Sendo este apenas um exemplo – o mais gritante, por sinal.

Insisto – os indicadores são medidas importantes para avaliar a abrangência, eficácia e eficiência da nossa acção profissional, mas não é por elas que a nossa actividade se desenvolve – é pelos doentes. Permitir a subversão da sua função indicadora (como o próprio nome indica), e usá-la como orientador régio da actividade assistencial, é dar primazia ao economicismo em detrimento do doente.

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