Por Carlos Lima

Há cerca de um ano publicava «chicotada psicológica» [1] tentando, com exemplos concretos, explicar os seus efeitos, em termos efectivos, ao fim de um conjunto de jornadas. Este ano não resisto a olhar novamente para o fenómeno, porque 12 em 18 clubes da 1ª Liga já mudaram de treinador. O que se passa?

Olhando para a tabela classificativa [2], à 16ª jornada, os 7 últimos classificados trocaram de treinador com o Tondela (último) a trocar nesta jornada. Nos 5 primeiros, apenas o terceiro (Braga) trocou de treinador, após falhar compromisso europeu e saída da taça de Portugal pela acção de um clube da 2ª liga.

No meio da tabela classificativa apenas 1 não trocou (Setúbal). Existe uma situação particular com o Chaves que perdeu o treinador para o Braga, sem que este tivesse sido despedido, mas porque o treinador entendeu ser melhor para ele o projecto bracarense. Se fosse pela vontade dos adeptos (a julgar pelos lenços brancos mostrados nos jogos e pela contestação) Sporting e Porto também já teriam trocado e estou crente que se as coisas continuarem com a periclitância que têm vindo a demonstrar, provavelmente mudarão.

Olhando para a 2ª liga na 21ª jornada, 9 em 22 clubes trocaram de treinador, sendo que 2 trocaram por decisão do treinador (Santa Clara e Porto B) que saíram para clubes da 1ª liga e os 6 últimos por chicotada psicológica, ficando um clube que agora subiu alguns lugares mas à data da saída de treinador estava nos sete últimos.

Reflexão sobre o assunto:

Serão estes treinadores, todos, incompetentes?

Estarão os projetos futebolísticos dos clubes mal definidos?

Terá a crise económica limitado o acesso a jogadores que os clubes pretendiam?

Existe um mau planeamento conjunto (dirigentes e treinadores) dos projetos?

Muitas mais perguntas existem que se poderiam colocar.

Acredito que os clubes têm andado a viver acima das suas reais posses, ou que alguém lhes fechou a torneira dos dinheiros.

Acredito que os dirigentes dos clubes querem sempre o melhor para os seus clubes, mas não planeiam de forma correcta os seus clubes e, neste momento, vão buscar treinadores e jogadores que não se adequam à sua ambição.

Acredito que a dita exigência que se coloca nos treinadores é fruto da tentativa de melhorar o que por si já era difícil.

Acredito que o futebol português foi de tal forma inflacionado com a competição com os clubes de ligas mais ricas, que ter jogadores portugueses se tornou uma situação difícil, pois a liberalização da circulação pelo que ficou conhecido pela «lei.Bosman»[3], deu um rude golpe nas ambições dos clubes portugueses, que fazem um trabalho de sapa para muitos clubes estrangeiros.

Acredito que o nível da formação em Portugal atingiu um patamar elevado fazendo com que o jogador português seja muito cobiçado, mas os clubes não estão a aproveitar esta situação porque a má gestão em muitos deles, coloca o lucro do lado dos empresários.

Acredito em muito mais coisas, mas diz o bom senso que não devo ir por aí, mas que o que se está a passar é uma verdadeira hecatombe não tenho duvidas. Ainda não dobramos o campeonato e por este andar, haverá clubes que trocaram duas ou três vezes de treinador na época.

Bem faz Vítor Oliveira [4] que escolhe os seus projectos, não para a primeira liga, mas para subir de divisão e já é rei no assunto, com nove subidas em dezasseis tentativas e este ano já está em 1º com bastantes pontos de avanço sobre o terceiro classificado. Resume os seus critérios de sucesso a «um bom plantel, mais importante que ter bons jogadores; uma estrutura sólida e organizada; uma administração que honra os compromissos, nomeadamente que pague aquilo que prometeu aos jogadores; muito trabalho e alguma sorte». Para mim, isto quer dizer muito, mas o leitor que tire as suas conclusões, porque isto é futebol e dizem que futebol é paixão, mas para quem intervém directamente também tem que ser razão.

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