Por Alice Santos

Ora, cá estou eu, mais uma vez, a desejar um bom ano a todos. Pois é, meus amigos, o Natal já passou e as festas terminaram. O que não tem fim é a poesia e, durante a quadra natalícia, ela aconteceu. Houve poesia nos sorrisos de reencontro, no gargalhar de felicidade das crianças, no reunir da família, em cada abraço amigo. Foi no meio de um belo poema de paz e amor que 2017 nos veio encontrar. Contudo, eu não escrevi um poema alusivo à época, nem vos venho falar de poemas de Natal.

Neste início de ano, venho falar-vos de uma mulher que bem cedo começou a escrever.

Consta que nasceu às duas horas da madrugada do dia 8 de Dezembro de 1894, em Vila Viçosa, filha de uma mulher de condição humilde, empregada de João Maria Espanca, de seu nome Antónia da Conceição Lobo e que, por ser tão bela quanto uma flor, lhe chamaram Flor Bela Lobo — mas que optou por se autonomear Florbela d’Alma da Conceição Espanca.

Da relação extraconjugal de João Espanca com Antónia Lobo nasceu ainda Apeles. Ambas as crianças foram registadas como filhos ilegítimos de pai incógnito, embora se conhecesse o nome do pai e a esposa de João Espanca tivesse autorizado o caso, dado ser estéril.

João Maria Espanca só viria a reconhecer a paternidade muitos anos depois da morte de Florbela. No entanto, ele e sua esposa, acolheram e criaram Florbela e Apeles quando Antónia faleceu.

O pai e o irmão são os dois únicos homens da sua vida e é a quem devota um verdadeiro amor, dedicando-lhes, aos 9 anos, o poema «A vida e a morte»:

O que é a vida e a morte
Aquela infernal inimiga
A vida é o sorriso
E a morte da vida a guarida

A morte tem os desgostos
A vida tem os felizes
A cova tem a tristeza
E a vida tem as raízes

A vida e a morte são
O sorriso lisonjeiro
E o amor tem o navio
E o navio o marinheiro.

Florbela foi uma escritora multifacetada. Escreveu um diário, epístolas e inúmeros contos. Colaborou em revistas e jornais de índole diversa e traduziu alguns romances. Contudo, Florbela Espanca, que escreveu quase sempre em forma de soneto é, acima de tudo, conhecida como poetisa e foi a sua poesia que lhe trouxe reconhecimento.

Apesar de na sua poesia termos poemas de sentido patriótico, como é o soneto «No meu Alentejo» — a exaltação da terra natal —, a sua temática versa quase sempre a solidão, a tristeza, a sedução, a saudade, o desejo e até a morte, ou seja, o amor em todas as suas vertentes.

A família de Florbela mudou-se para Évora, para que esta pudesse continuar a estudar, embora acabe por abandonar os estudos e casar, em 1913, com Alberto Moutinho que era seu colega desde a escola primária.

Às voltas com dificuldades económicas, regressa a casa de seu pai. No entanto, nunca deixa de escrever e, por esta altura, já tinha escrito vários contos e poemas. Esses poemas viriam a ser a génese de «Livros de Mágoas» e «Livro de Soror Saudade».

Em 1916, Florbela retoma os estudos e conclui, em 1917, o Curso Complementar de Letras. Muda-se para Lisboa e, subsidiada pelo pai, matricula-se na Faculdade de Direito, mas abandona o curso em 1920.

Na faculdade, conhece alguns intelectuais e poetas. Américo Durão é um dos poetas com quem convive e cuja poesia virá a ter grande influência na produção da autora. De facto, é o poeta que está na origem do título «Soror Saudade», pois é assim que a denomina quando lê o primeiro poema que ela lhe enviou. Confessa-lhe até que «do seu livro veio o meu livro».

Apesar de dizer que casou por amor e que a «Paixão ardente, louca, (…) é agora / vulcão que vai crescendo hora a hora...», a tal paixão fenece e acaba escrevendo «Obrigada pela tua carta, mas peço que seja a última. Deixa-me esquecer tudo isto. Tu não sabes, tu não podes saber o que eu tenho sofrido. Está tudo acabado. Deus te faça feliz».

A par do fracasso do primeiro casamento, a doença vai-se manifestando mais insistentemente, o que a obriga a longos períodos de repouso e também de peregrinação pelos sítios onde o procura.

Poucos meses após o divórcio, surge o segundo casamento, em 1921, com António Guimarães, alferes de artilharia da Guarda Republicana que prestava serviço na cidade Invicta. Fixam residência em Matosinhos. É nesta altura que conhece Mário Lage, tenente médico, colega do marido, que viria a ser o seu terceiro marido.

«Sou triste, imensamente triste, duma tristeza amarga e doentia que a mim própria me faz rir às vezes. É só disso que eu me rio, e aqui tem no meu carácter uma sombra negra, enorme, medonha… a hipocrisia. (…) Sou insaciável, mal um desejo surge, outro desponta, e em mim há sempre latente a febre do sonho e do desejo, quando possuo algo de infinitamente consolador… desejo mais! Mais ainda, mais sempre! Erguida na montanha solitária, interrogando a vibração dos céus, a minha alma é o túmulo profundo onde dormem, sorrindo os deuses mortos» escrevia Florbela numa de suas cartas.

Mesmo nas cartas, podemos sentir a tristeza, o negrume, a morte… sentimentos presentes em toda a sua obra. E reforça ideia de infortúnio, de desnorte quando diz «Eu sou a que no mundo anda perdida, / Eu sou a que na vida não tem norte, / Sou a irmã do Sonho, e desta sorte / Sou a crucificada… a dolorida…». Chega a descrever a dor ao escrever «A minha Dor é um convento ideal / Cheio de claustros, sombras, arcarias, / Aonde a pedra em convulsões sombrias / Tem linhas dum requinte escultural».

Em 1925, divorcia-se mais uma vez — desta, de Mário Lage, colega do anterior marido (como já havia dito).

Florbela estava a atravessar uma fase emocional estável; no entanto, a tristeza e a tragédia parecem persegui-la. Em tempos havia escrito «O pavor e a angústia andam dançando… / Um sino grita endechas de poentes… / Na meia-noite d´hoje, soluçando, / Que presságios sinistros e dolentes!…» e «Tenho ódio à luz e raiva à claridade / Do sol, alegre, quente, na subida. / Parece que a minh’alma é perseguida / Por um carrasco cheio de maldade!».

Realmente, não consegue ter uma existência calma, pois dá-se a morte de seu irmão, que se despenhou com o avião que pilotava, no Tejo.

O seu desgosto é tremendo e, o saber que o seu irmão, a quem amava profundamente — a ponto de até por isso ser criticada — se teria suicidado, deixa-a inconsolável e ainda mais doente. A sua já frágil saúde piora a cada dia, mas Florbela continua a escrever.

«Versos! Versos! Sei lá o que são versos… / Pedaços de sorriso, branca espuma, / Gargalhadas de luz, cantos dispersos, / Ou pétalas que caem uma a uma…». Isto diz a autora, mas, na verdade, muitos são os versos de famosos sonetos que conhecemos. Deixo como exemplo:

«Se tu viesses ver-me hoje à tardinha, / A essa hora dos mágicos cansaços,»;

«Quantas vezes, Amor, já te esqueci, / Para mais doidamente me lembrar»;

«É vão o amor, o ódio, ou o desdém; / Inútil o desejo e o sentimento…»;

«Dize-me, amor, como te sou querida, / Conta-me a glória do teu sonho eleito,»; e

«Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida. / Meus olhos andam cegos de te ver. / Não és sequer razão do meu viver / Pois que tu és já toda a minha vida!»

Quem não ouviu Mariza cantar «Caravelas»?

Tanto se escreveu sobre Florbela Espanca. Tanto se há-de escrever. Tanto irá ficar por ser dito… Hoje não vos posso contar muito mais, pois já vai longo o texto.

Digo-vos ainda que a poetisa tinha a «Alma a Sangrar». Talvez por não saber «Quem nos deu asas para andar de rastros» nem «Quem nos deu olhos para ver os astros / Sem nos dar braços para os alcançar». Talvez devido às «Mentiras». Talvez porque a sua casa, aquela a que chamava «A Nossa Casa», não fosse mais do que um sonho, um desejo e o bem que mais invejava «num país de ilusão»… Mas nunca é «Tarde Demais» para se deliciar com a vasta obra desta poetisa que pode encontrar em qualquer biblioteca, nomeadamente, na Biblioteca Florbela Espanca, em Matosinhos.

Por tudo o que se sabe, creio que se pode dizer que Florbela era fatalista e, se acreditarmos que é o destino, entidade abstracta, que nos marca a vida até ao momento derradeiro, então talvez tenhamos em Florbela o exemplo que nos leva até ao mito. De facto, ela própria reconhece «no fadário que é o meu, neste meu penar». Nasce no dia 8 de Dezembro de 1894, dia de Nossa Senhora da Conceição; é baptizada na Igreja de Nossa Senhora da Conceição, em Vila Viçosa, o seu primeiro casamento é no dia 8 de Dezembro, aos 8 anos adopta o nome Conceição e morre na madrugada de 8 de Dezembro de 1930.

Se há vidas que dariam bons filmes, a de Florbela é uma delas. Por isso, em 2012, a RTP produziu e exibiu a minissérie «Perdidamente Florbela» [1], que foi adaptada e lançada no cinema com o nome de «Florbela» [2].

A sua vida, apesar de curta, foi tumultuosa, inquieta e repleta de sofrimentos íntimos que soube legar-nos em poesia da mais alta qualidade, carregada feminilidade, paixão e, até, erotismo.

Na verdade, apenas queria «Amar, amar perdidamente» e, como a sua vida amorosa foi sempre um desastre (diz-se que o terceiro a traía com um funcionário do posto médico e ela já tinha outro relacionamento), estava farta de viver assim. No seu diário questiona-se: «A morte definitiva ou a morte transfiguradora?». Como que a anunciar o seu suicídio, em «O Moribundo» diz: «Não tenhas medo, não! Tranquilamente, / Como adormece a noite pelo Outono, / Fecha os teus olhos, simples, docemente, / Como, à tarde, uma pomba que tem sono… / A cabeça reclina levemente / E os braços deixa-os ir ao abandono, / Como tombam, arfando, ao sol poente, / As asas de uma pomba que tem sono» e interroga-se «O que há depois? Depois?… O azul dos céus? / Um outro mundo? O eterno nada? Deus? / Um abismo? Um castigo? Uma guarida? / Que importa? Que te importa, ó moribundo? / — Seja o que for, será melhor que o mundo! / Tudo será melhor do que esta vida!…». E pôs termo ao sofrimento… mas, antes, a 2 de Dezembro de 1930 escreve a última frase do seu diário: «E não haver gestos novos nem palavras novas».

Que importam os gestos e as palavras novas quando a sua poesia é eterna, e «Ser Poeta»

Ser Poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim…
É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente…
É seres alma e sangue e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda gente

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