Por Gustavo Martins-Coelho

Começa a notar-se um padrão, nas minhas últimas crónicas: identifico uma doença, digo que a acupunctura tem apresentado resultados promissores, nos estudos realizados, mas que esses estudos são de fraca qualidade científica e, por isso, não é possível tirar conclusões definitivas. De facto, hoje, enquanto preparava esta crónica, deparei-me com um estudo, que refere que apenas um quarto dos estudos sobre acupunctura têm qualidade científica aceitável [1].

Uma das razões para isso tem que ver com o facto de muita da investigação na área provir da China, onde a conceptualização teórica em torno da relação entre a medicina científica e a medicina tradicional, bem como da abordagem científica destas questões, é diversa da nossa [2]. Por exemplo, a base da acupunctura é a teoria dos meridianos, que data de há cerca de dois mil anos e para a qual não foi encontrado qualquer fundamento anatómico, para além da proximidade dos pontos sobre os quais se colocam as agulhas a determinados nervos [3], que talvez possa explicar a sua acção, através de alterações na impedância desses nervos [4]. Mas isso também parece não preocupar muito os praticantes de acupunctura, visto que, na sua perspectiva, as alterações nas funções orgânicas não correspondem a alterações na anatomia, invalidando, por isso, a utilidade de radiografias, tomografias computorizadas, ressonâncias magnéticas, etc. [5]. Outra corrente identifica um sistema de regulação e circulação de energia, o sistema primo-vascular, como sendo o responsável pela acção da acupunctura [6, 7, 8, 9]. Ainda outra socorre-se do princípio da simetria, segundo o qual o diafragma divide o organismo em duas metades, superior e inferior, as quais têm propriedades fisiológicas, patogénicas e terapêuticas comuns [10]. Uma outra corrente afirma que é o sistema nervoso autónomo que medeia a acção terapêutica da acupunctura [11]. Ainda mais uma: a acupunctura altera a actividade eléctrica da derme [12]. Todas estas teorias pertencem, contudo, ao domínio da conjectura e carecem de suporte científico, mas constituem, para os médicos e cientistas chineses, explicações perfeitamente válidas e aceitáveis.

Outra preocupação curiosa dos praticantes de acupunctura é a acupunctura placebo. Supostamente, existem pontos específicos, onde as agulhas podem ser colocadas, para surtirem efeito, mas, como um dos princípios do método científico é o de comparar a acção do tratamento que se pretende testar com um placebo [13], os estudos fazem-se comparando a aplicação de acupunctura nos pontos correctos com a aplicação em pontos que, de acordo com a teoria dos meridianos, não deviam ter qualquer efeito; e o que se verifica, muitas vezes — a maioria das vezes, direi — é que não há qualquer diferença entre uns e outros, o que significa, em princípio, que o efeito benéfico da acupunctura é apenas resultante do efeito placebo, ou seja, é psicológico [13]. Então, o objectivo dos praticantes de acupunctura passou a ser estudar como reduzir o efeito da acupunctura praticada sobre pontos que não os que a teoria milenar dos meridianos define como adequados [14]. Ou seja, em vez de procurarem demonstrar que a acupunctura funciona melhor do que um placebo, o objectivo passou a ser fazer com que o placebo deixasse de funcionar…

Para terminar, como de costume, passemos ao objecto do dia. Na última crónica, fizemos uma incursão no mundo automóvel, a propósito do objecto do dia — a gasolina com chumbo [15]; e hoje continuamos no mesmo tópico, falando de catalisadores. O catalisador é um daqueles casos de coisas que não podemos ver, mas nos fazem mal. As emissões dos veículos a motor criam uma mistura nociva de substâncias, incluindo dióxido de enxofre e partículas, que podem causar inflamação nos pulmões e agravar a asma, e poluentes como benzeno e formaldeído, que podem contribuir para o cancro, malformações congénitas e outras doenças graves.

Em 1950, o engenheiro químico francês Eugène Houdry patenteou o primeiro catalisador, nos Estados Unidos — uma grande caixa de metal que se aparafusava por baixo dos carros e reduzia as emissões do tubo de escape em mais de 50 %. Este catalisador usava uma combinação de platina, paládio e ródio como agentes catalíticos, que removiam os poluentes e faziam com que menos toxinas fossem libertadas através do tubo de escape. Em meados dos anos setenta do século passado, os catalisadores tornaram-se um padrão no fabrico de carros nos EUA e, progressivamente, foram-se estendendo ao resto do mundo.

Os benefícios dos catalisadores são muitos, mas não resolvem totalmente o problema. As emissões dos veículos ainda contribuem para a poluição atmosférica e representam uma fatia considerável do total de substâncias nocivas emitidas diariamente para o ar.

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