Por Carlos Lima

O «se» é uma condicionante tão grande que as pessoas parecem ignorar o seu poder.

Não é a primeira, nem vai ser a ultima, com toda a certeza, que vamos ter pais a querer interferir no trabalho que desenvolvemos, no clube onde treino, com os seus filhos.

De forma mais ou menos rebuscada vão dando opinião sobre o jogo dos filhos e tentando influencia-los para jogar de determinada forma, regra geral diferente da que lhe é solicitada pela equipa técnica, ou colocando pressão sobre as suas acções que intimidam, ou ainda mais, desvalorizando o seu empenho e distribuindo comentários depreciativos.

Por vezes ignoramos, mas quando atingem o exagero, é dada instrução clara ao atleta, em tom suficientemente alto para que percebam o que lhes está a ser pedido. Se ainda assim não entendem, o atleta é retirado temporariamente do campo, porque regra geral a sua concentração baixou demasiado e o seu desempenho está a ser influenciado negativamente, que é a antítese daquilo que supostamente os pais desejavam.

Outra estratégia de influência é falar directamente com a equipa técnica, no sentido de condicionar as actuações, com a inclusão da condicional «se for para continuar assim tiro o meu filho». Claro que respondemos que como educadores têm o direito de escolher o que entendem como o melhor para os seus filhos. Só que em oposição a isto os filhos recomendam o grupo aos amigos e terminamos as épocas desportivas sempre com mais atletas, do que começamos.

Olhando com parcialidade, claro, sinto que as equipas em que me é permitido ser líder e treinador, assumem um colectivo mais forte, facto que também me é, por vezes, referido pelos treinadores das equipas adversárias, com que nos encontramos mais de uma vez, ao longo da época.

Estatisticamente os resultados também o provam e isto dá força ao trabalho de construção, permitindo a todos os atletas ter oportunidades de evoluir e é agradável ver a equipa a melhorar, com a melhoria de todos os elementos da equipa. Falar de formação sem estes pressupostos cumpridos, para mim não faz sentido, mas para muitos pais esta «travessia do deserto» é pura perda de tempo, porque nem todos têm que ser futebolistas, e não se está a puxar pelos que o podem ser. Resposta simples, se os filhos na sua perspectiva não estão a aprender nada, se são assim tão bons não lhes faltam clubes mais competitivos, ainda que eu acredite que quem não aproveita aqui as oportunidades, também não as aproveita em outro lugar.

Gosto de educar pelo exemplo e há atitudes que não tomo em situação alguma, muito menos o faria em frente ao grupo e que gostava de ver banidas em qualquer campo desportivo, muito mais nos clubes de formação. É aflitivo ver gente a gritar como se não houvesse amanhã, a insultar o árbitro porque não se concordou com a sua decisão e até a insultar os atletas, crianças de onze e doze anos.

Outra situação que me intrigou, relacionou-se com o jantar do clube, em que no período de espera até sermos servidos, vi os atletas agarrados aos smartphones, tablets e outros e convívio zero. Situação aparentemente perfeitamente normal para os pais.

Intervim, argumentando que se era o jantar do clube não fazia sentido que não estivessem a interagir. Resultou bem.

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