Por Gustavo Martins-Coelho

Quando iniciei esta sequência de crónicas sobre acupunctura [1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11, 12, 13, 14], tinha já algum conhecimento básico sobre o tema, mas tive de fazer uma investigação mais aprofundada, para conseguir compilar o melhor possível a informação científica existente sobre o assunto, sem preconceitos nem mais cepticismo do que aquele que deve existir saudavelmente em qualquer mente aberta e de espírito metódico e científico. Mas confesso que fiquei surpreendido, pois não esperava encontrar tantos estudos.

A verdade é que há estudos sobre acupunctura para todos os gostos. Por exemplo, para as mulheres, há estudos sobre o papel da acupunctura no parto — inconclusivos [1]. Há também estudos sobre o papel da moxabustão no parto — sugestivos da sua utilidade na correcção da posição do bebé, na redução do uso de oxitocina e de cesariana, mas não definitivos [2].

Para os homens, há estudos sobre o papel da acupunctura na astenozoospermia, uma palavra difícil para definir uma das causas de esterilidade — sugestivos da vantagem da acupunctura em relação à medicina convencional, mas insatisfatórios [3].

Para os casais, há estudos sobre o papel da acupunctura no sucesso da fertilização in vitro — contraditórios [4, 5, 6].

Para ambos os sexos, há estudos sobre o papel da acupunctura nas lesões cerebrais de causa traumática — que também são inconclusivos [7].

Há também estudos sobre o papel da acupunctura na doença pulmonar obstrutiva crónica — sugestivos de que a acupunctura possa melhorar a qualidade de vida e reduzir a sensação de falta de ar, mas não definitivos [8].

Há ainda estudos sobre o papel da acupunctura na epilepsia — que a dão como inútil [9].

Há mais estudos sobre o papel da acupunctura na estenose do canal vertebral lombar, que provoca a dor ciática — inconclusivos [10].

Há alguns estudos sobre o papel da acupunctura nas entorses do tornozelo — incapazes de provar a sua utilidade [11, 12].

Acrescentem-se estudos sobre o papel da electroacupunctura na cicatrização de feridas — insuficientes para demonstrar um benefício sem margem para dúvida [13].

Há até estudos sobre o papel da acupunctura na obstipação crónica — positivos, mas sem credibilidade científica [15].

Há ainda mais estudos, mas chegou a hora de falar no objecto do dia. Se, na semana passada [16], falámos do automóvel, em geral, como sendo um objecto que teve grande impacto na saúde pública, hoje, o objecto do dia será um automóvel em particular. A verdade é que devemos muitas, se não a maioria, das características de segurança dos carros que conduzimos hoje em dia, em parte ao hoje obsoleto Chevrolet Corvair, que foi fabricado pela General Motors na década de sessenta do século passado.

O advogado e político norte-americano Ralph Nader [17], que se tornou célebre pelas suas campanhas a favor dos direitos dos consumidores nos anos sessenta, destacou este automóvel de motor traseiro no seu livro revolucionário: «Inseguro a qualquer velocidade», no qual o autor acusava a General Motors e outras companhias do sector automóvel de não instalarem equipamentos de segurança, já existentes naquela época, apenas por razões de economia de custos. No caso concreto do Corvair, segundo o Ralph Nader, havia um defeito na suspensão que fazia os condutores perderem o controlo do veículo e às vezes capotar.

O livro teve um enorme impacto na opinião pública e levou à exigência de melhorias consideráveis na segurança rodoviária. Menos dum ano após a publicação do livro, a General Motors introduziu grandes alterações na suspensão do Corvair e o Congresso norte-americano criou aquilo que viria a ser a National Highway Traffic Safety Administration, a Administração Americana de Segurança do Tráfego Rodoviário.

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