Por Sara Teotónio Dinis

O dia 2 de Janeiro de 2017 vai ficar marcado na minha memória como um dos piores dias de urgência que vivenciei.

Na Área Médica 2, às 17h00, já não havia espaço para colocar mais macas, nem em homens nem em mulheres. Os doentes em maca foram sendo organizados em 3 filas consecutivas, em cada um dos quatro lados da sala, de tal forma que os médicos e enfermeiros foram sendo lentamente encurralados no centro, dentro do balcão central.

Percebi o rumo que aquela tarde estava a tomar quando comecei a ter sérias dificuldades em exercer as minhas funções habituais – dei por mim a não conseguir fazer uma gasometria por estar literalmente entalada entre as macas, ou a não conseguir medir uma tensão arterial por não conseguir fazer passar o dinamap (monitor portátil de sinais vitais). Ganhei consciência, naquele momento, que caso um doente entrasse em paragem cardiorrespiratória, ninguém conseguiria fazer passar o desfibrilhador até à sua maca.

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Figura 1: Notícia do Jornal da Noite, na RTP1, dia 13-01-2017.

            As auxiliares, em circuito permanente na urgência, começaram a não conseguir voltar a entrar no open space, pois as macas bloqueavam os acessos à sala. Os pedidos de realização de ECD acumularam – as radiografias chegaram a ser realizadas 2 horas após pedido inicial. A triagem chegou a ter mais de 1 hora de espera.

            Às 18h00 assumi uma doente de 53 anos, referenciada do CS Arganil por tosse e dispneia com 3 dias de evolução, mas que se encontrava em cadeira de rodas, consciente, orientada e colaborante, eupneica, apirética, sem sinais de dificuldade respiratória, assintomática após anamnese detalhada. Sozinha, e por minha decisão clínica, acabei por transferir a doente para a sala de emergência face a instabilidade hemodinâmica – por taquiarritmia de difícil caracterização, com frequência cardíaca de 215bpm, cujo ECG exigi com urgência ao técnico que se encontrava de serviço – e na ausência de auxílio, quer da enfermeira quer da especialista de Medicina Interna que alertei na sequência da minha observação inicial.

            Já na sala de emergência, a doente foi assistida por interno de Medicina Interna que se encontrava sozinho a orientar outros dois doentes emergentes. Em menos de 10 minutos, e após intervenção da Anestesiologia e Cardiologia, por nós chamadas ao local, foi feita cardioversão eléctrica à doente, que minuto e meio após reversão a ritmo sinusal entrou em paragem, tendo sido reanimada após 10 minutos de manobras de ressuscitação.

Como é suposto prestar cuidados de saúde com segurança e dignidade nestas circunstâncias? Como é suposto a um médico interno aprender o que quer que seja quando as condições mínimas de qualidade e segurança não se verificam, estando consequentemente o risco e a probabilidade de erro aumentadas exponencialmente?

Se este dia não foi o caos, então não sei o que o será.

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