Por Gustavo Martins-Coelho

Ando intrigado com o horário do metro. O do Porto, bem entendido.

A culpa disto tudo é o Moovit [1], uma aplicação que instalei do meu telemóvel e me tem feito muito feliz, com o cálculo de rotas em transporte colectivo. O Moovit (note-se que eu não sou sócio da empresa, portanto estou à vontade para falar) é a aplicação dos meus sonhos. Faz o mesmo que eu vi fazer, nos idos de 2007, pela página da BVG [2], em Berlim, ou o saudoso MétrO [3], que já não é actualizado desde Janeiro de 2013 e no qual cheguei a colaborar, mantendo e actualizando a base de dados referente aos transportes do Porto. A grande vantagem da página da BVG, para quem, como eu, tinha como modo de vida o idiota Itinerarium.net [4], era (e, surpreendentemente, continua a ser, dez anos volvidos) permitir planear viagens com base nos horários reais dos transportes e não ficar limitado à análise da frequência (que consiste em ser optimista e esperar que uma linha que passa com mais frequência chegue mais depressa ao destino, o que, sendo a regra, tem as suas excepções). O MétrO estava limitado à análise de frequência, mas funcionava no telemóvel sem precisar de ligação à Internet, a qual não era tão abundante como hoje em dia. O Moovit faz as duas coisas: tem os horários disponíveis (vai consultá-los à Internet, que é muito mais ubíqua actualmente) e funciona no telemóvel. Além disso, cobre mais dum milhar de cidades. Já imagino alguns leitores a comentarem, neste ponto do texto:

— Então e o Move-me [5]?

O Move-me tem as suas limitações. Frequentemente me acontece ele jurar não haver ligações para o meu destino, momentos antes de eu ver passar um autocarro directo para o ponto onde pretendo ir [6]. Outras vezes, propõe-me a viagem mais obtusa que imaginar se possa; se bem que, nesse departamento, o Itinerarium estabeleceu o recorde, quando me sugeriu, certa vez, que apanhasse o último autocarro da noite e fizesse transbordo para o primeiro da manhã, esperando a noite inteira na paragem (claro que fui de carro). Daí que a única coisa para que o Move-me serve é mesmo saber quanto tempo falta para o autocarro seguinte, sem ter de gastar dinheiro com o SMSbus [7].

O único inconveniente do Moovit é que existe o risco do horário não estar actualizado, visto não ser uma aplicação oficial de nenhum dos operadores que cobre (vamos, por momentos, assumir que os operadores mantêm as suas próprias aplicações actualizadas, o que está longe de ser o caso [6]). De modo que decidi comparar os horários que o Moovit indica para o metro do Porto com o horário que o metro do Porto publica na sua página oficial — não coincidiam.

Foi então que tive uma ideia peregrina: resolvi analisar o horário do metro do Porto [8] um pouco mais a fundo — e vivi uma experiência delirante. Estou, desde então, muito intrigado com o horário do metro.

Vou tentar explicar.

O horário diz que a linha A passa a cada dezanove minutos entre as cinco e as sete horas da manhã, a cada dez minutos das sete da manhã às sete da tarde, a cada doze minutos na hora que se segue e, finalmente, a cada dezasseis minutos até ao encerramento. Diz também que o primeiro metro sai do Senhor de Matosinhos às 5h59 e o último às 1h02. O problema é que, se somarmos dezasseis minutos a 5h59 e assim sucessivamente, cumprindo as indicações constantes no horário, temos que o último metro deveria partir à uma hora da manhã em ponto e não dois minutos depois. É impossível fazer as mesmas contas no sentido inverso, pois não sabemos a que horas sai o primeiro da Trindade (a partir das nove da noite, o serviço é entre esta estação e o Senhor de Matosinhos; deixando de ir até ao Estádio do Dragão).

O mesmo problema existe na linha D: fazendo as contas segundo as indicações do horário, o último metro deveria sair à uma hora da manhã de Santo Ovídio, mas o horário diz que sai às 1h03. Não fiz as contas ao sentido oposto, porque achei que ia obter um resultado semelhante e ficar ainda mais intrigado.

Guardei a intriga para outra parte: é que, fazendo as contas, por exemplo, obtemos que deveria haver um metro da linha A a sair do Estádio do Dragão a sair às 7h21. Mas o horário da linha E diz que, a essa hora, sai um da mesma estação. Como não podem passar dois metros ao mesmo tempo na mesma estação (no mesmo sentido), não sei como desfazer o imbróglio. Às 7h31, a mesma coisa, mas com a linha F; às 7h51 volta a haver sobreposição com a linha E; isto repete-se 21 vezes, ao longo do dia, com as linhas B, E e F. Enganei-me nas contas à linha A, está visto. Mas, em relação às linhas E e F, o horário escrito por extenso, ao minuto. Não há margem para erro meu e, contudo, há um metro E e outro F a passar na Trindade às 21h58, ambos no mesmo sentido; e isto repete-se às 22h19, às 22h49, às 23h19, às 23h49, às 0h19 e às 0h49. Se alguém souber esclarecer-me como é isto possível, agradeço.

Mas o que me intriga mesmo — mesmo — é a função de cálculo de percursos, na página do metro [9]. Por exemplo, se eu pesquisar como ir do Senhor de Matosinhos à Trindade às 5h55, a fazer fé no horário, deveria obter, como resultado, um metro a sair às 5h59 (e quatro minutos de espera), certo? Pois, mas o que obtenho é um metro às 6h10. Pegando na linha F, da Trindade à Senhora da Hora, e pesquisando uma viagem às 22h15 (esperando destrinçar se é a linha E ou a F que passam às 22h19), obtenho a linha F a passar, afinal, às 22h28. Todas as tentativas que fiz, entre estações diferentes e a horas diferentes, não bateram certo com o que está no horário. Isto intriga-me mais do que me decepciona.

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